A verdade dos números

Por

A matemática é uma das ciências mais sensacionais que a humanidade conseguiu criar. Dar formas abstratas a fenômenos observados, e ser capaz de prever os resultados, além de poder aplicar essa técnica a quase tudo que existe, das moléculas fundamentais ao movimento do universo. Então, por que não aplicar esse tipo de conhecimento às ciências “humanas”? Isso é a base do segundo debate das relações internacionais, mas essa discussão fica pra outro dia. Hoje falamos da divulgação dos dados do IDH de 2011, e por que é difícil misturar política com números. 

Recordando, o IDH é um indicador de desenvolvimento que mostra, grosso modo, a qualidade de vida da população de cada país. Pois bem, o foco acaba sendo sempre o Brasil, e pipocam análises sobre os dados aqui e acolá. O relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mostra que estamos na 85ª posição, atrás de países como a Grécia (mesmo mal das pernas na economia) e o México (praticamente em guerra civil com traficantes). Na verdade, vamos mal em comparação à própria América Latina. Mas também estamos á frente de Índia e China, por exemplo, e na “competição” particular dos BRICS perdemos apenas da Rússia nesse ranking. 

Muito legal, mas… e daí? O valor disso vem das comparações. Os demais BRICS, por exemplo, tiveram crescimento maior no IDH, percentualmente. Por outro lado, o Brasil tem uma média de crescimento histórico impressionante, apesar do desempenho fraco nos últimos anos. O que isso significa? A ideia é ver os indicadores, verificar quais políticas estão dando certo ou errado e consertar o que for preciso. Mas aqui temos outra dificuldade, que é o valor político que esse número toma. 

O Brasil, por exemplo, está chiando que os resultados seriam melhores se os números utilizados fossem mais recentes. Mesmo que fossem esses dados mais novos, com mais gente na escola (um dos fatores principais para a determinação do índice)… faria alguma diferença na prática? Afinal, não adianta termos porcentagens grandes de alunos matriculados quando uma enorme parcela deles são alfabetos funcionais, a porcentagem que chega ao ensino superior (mesmo com os programas governamentais) é pequena e em comparação a estudantes de outros países levamos uma sova nas provas comparativas de ciências. Só um exemplo, mas poderíamos entrar na questão das estratégias mirabolantes de manipulação das faixas de renda, e por aí vai. E isso pra não falar de outros índices, como o coeficiente de Gini, de concentração de renda, que nos faz passar vergonha. 

O que fica de tudo isso? Primeiro, mexer com números pode ser uma dor de cabeça para astrônomos e engenheiros, mas muito mais para estatísticos, economistas e gestores, que lidam com o improvável e incerto. Por mais que isolem as variáveis, vai haver desvios e críticas aos modelos (como o próprio IDH sofre). Segundo, a apropriação desses dados, e sua distorção, pode ter efeitos muitos ruins – com políticas que rendem números bonitos, mas pouco efeito prático. A ideia é ajudar a erradicar a pobreza, mas sem bom-senso na interpretação e aplicação desses dados, eles se tornam apenas o que são, números.


Categorias: Brasil, Economia, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


0 comments