A tradição liberal norte-americana

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Quando observamos os discursos dos presidentes dos Estados Unidos, suas palavras e objetivos, bem como a retórica das intervenções militares em outros países, com destaque para os casos do Iraque e do Afeganistão, devemos pensar no que está por trás de tudo isso, e a resposta mais plausível é a tradição de pensamento liberal enraizada nas bases políticas daquele país.

Importante destacar que se fala, aqui, de liberalismo político. Mesmo havendo similaridades, liberalismo econômico ou até mesmo liberalismo enquanto contribuição teórica das Relações Internacionais são coisas distintas. Para tanto, fazendo jus àquela primeira vertente mencionada, inclusive, no título, um grande autor é considerado referência nesta temática: Louis Hartz. Este foi cientista político e lecionou na Universidade de Harvard, em 1955 escreveu um livro intitulado “The Liberal Tradition in America: an Interpretation of American Political Thought Since the Revolution”, sendo que a presente análise baseia-se nesta obra. 

Para ficar mais simples, podemos recorrer à famosa estipulação liberal expressa por “liberdade, igualdade e fraternidade”. Hartz foi um dos fundadores do chamado “Excepcionalismo Americano”, no qual os Estados Unidos são considerados um país excepcional no mundo, não havendo outro comparado a ele. Tal corrente de pensamento afirma que existe uma única ideologia norte-americana e, novamente, ela se situa no liberalismo político. 

O livro de Hartz é extremamente parcial, mas é evidente que o que está nele faz parte do discurso da política externa norte-americana. Vamos aos fatos. Retomando Tocqueville, o autor afirma que todos os americanos nasceram iguais. Nos Estados Unidos nunca houve traços feudalistas, muito menos revolucionários. Por conseguinte, não existindo uma sociedade estamental, não se desenvolveu uma sociedade socialista, haja vista que a igualdade sempre foi um traço marcante dos norte-americanos. 

É com base nesta constatação que vemos dois aspectos bastante recorrentes em sua atual política externa. Primeiro, a democracia é utilizada como “chave mestra” para justificar qualquer intervenção externa ou proteção à soberania nacional do país. De acordo com Hartz, outra vez, a equidade social, o sufrágio universal, a inexistência de diferença entre classes sociais e de regimes aristocráticos fizeram dos norte-americanos o povo único que são. Segundo, sua inserção internacional mostra como suas políticas interna e externa são extremamente ligadas. Até a Primeira Guerra Mundial eles ficaram no isolamento, mas depois fomentaram, e muito, a presença nas mais diversas partes do mundo até se tornarem a potência do século XX. 

Para quem não nasceu nos Estados Unidos e analisa, de uma forma análoga, o discurso da política externa norte-americana, parece que a mesma é incoerente com seu realismo político. Por exemplo, por que Bush, ou até mesmo Obama, em escalas diferentes, disse que a liberdade e a democracia devem ser levadas ao restante do mundo e, para isso, utilizou força e coerção em ataques diversos? Em realidade, há controvérsias, contudo, para os norte-americanos, a tradição liberal é inerente à sua própria vida. 

Nos casos do Iraque e do Afeganistão mencionados no início do texto, fica nítido reconhecer como é a verdadeira missão norte-americana, baseada em três princípios centrais: os valores da democracia liberal e ocidental são universais; exportar democracia significa estabelecer a paz mundial; e a promoção desta democracia torna o mundo mais seguro para os interesses americanos. 

Sumariamente, eles acreditam terem uma missão permanente perante a humanidade, trazendo liberdade e democracia. Para nós isso soa estranho e, em partes, é hipócrita. Mas, para os vizinhos do norte, é algo natural, uma vez que seu país é qualitativamente diferente dos restantes. Acreditam piamente em suas crenças políticas, talvez de uma maneira cega que guia seus ideais internacionais.


Categorias: Estados Unidos, Política e Política Externa


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