A Suíça e o fim da imigração massiva?

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Imigração Suíça

A Suíça e seus referendos… em um país em que inúmeros assuntos internos são levados a consulta pública, vemos que um dos temas votados hoje ultrapassa as fronteiras nacionais e impacta, na verdade, toda a União Europeia (UE): trata-se da limitação à livre circulação de cidadãos do bloco europeu no país.

campanha retrata a imigração a partir da imagem simbólica de uma árvore que dá frutos, mas cujas raízes destroem gradativamente o país em sua base (foto), criticando a entrada massiva de imigrantes no país. Trata-se, de fato, de uma crise identitária em um país diversificado em suas regiões e idiomas, e cujo destacado centro cultural e econômico é Genebra, uma cidade com 43% de estrangeiros compondo sua população.

Vale lembrar que a Suíça não pertence à UE, mas, cercada por países do bloco, mantém com este uma série de acordos bilaterais de benefício mútuo. O acordo de livre circulação entrou em vigor em 2002, mas, com o resultado de hoje, será necessária uma revisão da relação entre as partes.

A proposta, apresentada em 2012 pelo partido conservador da “União Democrática do Centro” (UDC), advogou para que fosse estabelecido um teto máximo de imigrantes e um contingente anual limitado de estrangeiros entrando no país. A votação foi acirrada, mas deu a vitória à UDC, com aproximados50,4% de votantes de acordo com estes termos. Ironicamente, a taxa de participação voluntária foi alta (56,6%) como não ocorria desde 2005 quando foi votada a associação do país ao Espaço Schengen, o “espaço sem fronteiras internas” na Europa, o qual teve a ratificação suíça em 2008.

A entrada na Suíça de aproximados 80 mil imigrantes dos Estados Membros da UE na última década foi criticada com o argumento de que está ocorrendo uma “pressão” na infraestrutura e no mercado incompatíveis com as condições de acolhimento do país. Entretanto, os dados demonstram que, em 2002, a Suíça tinha 20% de imigrantes e hoje este contingente representa 23,4% em uma população total de quase 8 milhões. Com um aumento cuja expressividade pode ser questionada e levando-se em consideração que 22% da força de trabalho, principalmente na área de serviços, é composta por mão-de-obra estrangeira, percebe-se porque o assunto gera polêmica.

Representando um retrocesso à integração do continente, ao discutir um de seus princípios fundamentais de integração, os impactos da decisão suíça ainda são incertos. A renegociação de acordos representa um risco à própria economia suíça, que não deseja o isolamento e depende de boas relações com seus vizinhos europeus – com os quais o “saldo” nas relações sempre foi positivo.

Se a campanha apresenta o “excesso” como prejudicial também em matéria de imigração, trazendo consequências a longo prazo às instituições sociais e à integração cultural, vale a pena refletir até que ponto o excesso de nacionalismo também não representa um prejuízo ao futuro de um país como a Suíça. Diante de uma crise de identidade controversa, questiona-se se os frutos da imigração não enriquecem as raízes suíças, ao invés de destruí-las como a campanha pelo “sim” apresentou…


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