A sopa esfria

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Lembram daquele tema polêmico da internet na semana passada? E não, não é a menina que estava no Canadá. O mundo ficou em polvorosa com o protesto em massa contra a aprovação das leis de regulação da internet que circulavam no congresso dos EUA. Circulavam, no pretérito, por que a coisa azedou e foi pra gaveta. E saibam que tem tudo a ver com a eleição presidencial de lá.

Vamos por partes. Os projetos de lei da SOPA (Ato de Proteção contra Pirataria) e PIPA (Ato de Proteção de IP) já foram tratados aqui no blog, e basicamente querem impor restrições maiores e facilitar o trabalho das autoridades para a proteção de propriedade intelectual na rede. Muito bom, se não fosse a abrangência da coisa (que pode, por exemplo, tirar sites inteiros do ar caso um único usuário coloque conteúdo “ilegal”), e o fato de que normas e tratados que já existem, como o DMCA. E, na semana passada, um foi reservado para um protesto em massa (com sites auto-censurando suas informações, ou mesmo saindo do ar por um dia) e envio de petições ao Congresso e Departamento de Estado dos EUA. Nos dias seguintes, a votação sai de pauta por tempo indeterminado, e a comemoração dos mobilizados é geral.

Afinal, qual a influência desses protestos? Foram milhões de pessoas assinando petições e milhares de sites protestando. Mas assim como a mobilização da primavera árabe (alguém lembra?), essa influência “popular” pode ser um pouco enganadora. Vejam pelo lado da política: Obama está desgastado e precisando de financiamento pra sua campanha. Isso vai ser providenciado por muitos grupos econômicos mais à direita, como a indústria da mídia. E esse é o ponto – o que corre por aí é que a pressão pela votação dessas leis foi lobby da RIAA e outras organizações em troca de apoio na próxima eleição. Milhões de inconformados protestam contra a arbitrariedade e em defesa da liberdade de expressão. O que os republicanos fazem? Tiram o corpo fora e deixam de apoiar a votação. Dito e feito – dos 18 que abandonaram o projeto, a maioria é republicana; indo mais longe, os pré-candidatos do partido são unânimes ao ir contra o projeto nos (divertidíssimos) debates televisivos. Uma ironia, já que o cara que propôs isso tudo é do partido do elefante. Essa manobra de deixar a SOPA/PIPA de lado teria sido muito mais de interesse eleitoral dos republicanos do que uma resposta aos protestos (muito oportunos, na verdade…).

Em tempo, o fechamento de sites de compartilhamento de arquivos (outra coisa que rendeu um bafafá enorme e que está gerando um efeito cascata nessa semana), em um primeiro momento, não tem nada a ver com SOPA, PIPA, ou o que for. Todas as prisões e encerramento de atividades foram baseadas em legislação vigente (coisa que aquelas duas ainda não são), e pegaram gente envolvida com crimes graves, mas isso é coisa que vai ficar para os tribunais. Agora, o fato é que não deixa de ser muita coincidência que tenha ocorrido na mesma semana dos protestos – e vemos aí um pouco da pressão dos grupos midiáticos…


Categorias: Economia, Estados Unidos, Mídia, Polêmica


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