À sombra da guerra

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Certa feita disseram que os países viviam à sombra da guerra. O contexto era de tensão bipolar e a guerra era tida como improvável, mas a paz, impossível. O mundo então caminhava perdido nesse complexo meio termo. O tempo passou e essas palavras não soam menos verdadeiras atualmente. A guerra talvez tenha mudado um pouco de caráter, e um conflito generalizado não seja mais esperado entre potências. Todavia, essa sombra ainda nos acompanhou século XXI a dentro. 

A questão é que recentemente as palavras desse autor, Raymond Aron, fazem-se mais atuais do que nunca. Os conflitos internos na Síria tem despertado inquietações no vizinho, que, pela primeira vez em anos, fala de guerra. Na última quarta-feira, um morteiro sírio ultrapassou as fronteiras com a Turquia e matou cinco civis no país. A situação levou o Parlamento turco a aprovar uma moção considerando a possibilidade de guerra com a Síria, caso fosse necessário. 

A partir daí as tensões começaram a escalar. A Turquia realizou uma incursão militar no norte da Síria para desencorajar que algo do tipo acontecesse novamente. Como fosse uma ironia do destino, hoje um novo morteiro ultrapassou as fronteiras; desta vez, sem vítimas mortais. Foi o suficiente para que a Turquia bombardeasse a parte síria da fronteira e começasse a enrijecer o discurso sobre a guerra. O premiê Recep Tayyip Erdogan chegou a declarar que o governo turco pode estar bem próximo de um conflito. 

Há de se convir que Turquia e a Síria não são lá os vizinhos mais amáveis. Historicamente, esses dois países já não se dão bem desde a Segunda Guerra Mundial, quando a Turquia absorveu o território de Hatay, reivindicado pela Síria. E, ao final dos anos 1990, esses países quase entraram em guerra direta devido a essa disputa territorial. 

Findado o contencioso, essas disputas ainda permanecem no imaginário dos governantes. A despeito de ter sido sob as gestões de Erdogan e Bashar Al-Assad que se reduziram as tensões, bastou que o conflito interno eclodisse na Síria para que as rivalidades despertassem mais uma vez. Outro elemento importante é a questão do grande volume de refugiados sírios na Turquia. Estima-se que tenha ultrapassado a marca das 200 mil pessoas e o governo já tem apontado para a falta de espaço para esse número de pessoas. 

Por mais que a população refugiada não tenha diretamente a ver com os objetivos do governo sirio, a existência do conflito interno no país vizinho tem afetado diretamente os assuntos internos da Turquia, reduzindo também sua tolerância. Mesmo porque esse não é o primeiro morteiro a ultrapassar o território sírio e eventos como esse já ocorreram; mas, até então, nenhum deles tinha causado mortes. 

A guerra se avizinha no horizonte desses vizinhos. A pressão sobre Síria ocorre em um momento no qual Assad não poderia desviar suas atenções para adversários para fora de suas fronteiras. O governo sírio já desculpou-se internacionalmente e apontou que não tomará ações que levem à guerra (pediu que se mantivesse a luta há no mínimo 10 km da fronteira). Todavia, há quem diga que, tanto no amor quanto na guerra, vale tudo. Será que os rebeldes usarão dessas tensões em seu favor para tentar virar o jogo? É preciso aguardar os próximos dias para que se assista aos capítulos subsequentes. Enquanto isso, Turquia e Síria ficarão à sombra da guerra.


Categorias: Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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Harley
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