A síndrome de Dom Quixote nas Relações Internacionais

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[post do Luís Felipe]

Não houve cavaleiro andante mais valente que Don Quixote. Junto com seu leal escudeiro de aventura Sancho Pança e montado em seu cavalo Rocinante, viveram grandes aventuras para honrar a sua grande amada Dulcinéa. É a história de um fidalgo que lendo diversas histórias de aventuras e batalhas vividas por cavaleiros, desde os mais remotos tempos da história, terminou por perder o juízo e sair a viver sua própria loucura (autodenominadas aventuras pelo próprio Don Quixote). Não bastasse lutar contra guerreiros imaginários e viver honrarias inexistentes, o nosso cavaleiro andante ainda promete um reino a Sancho Pança.

Esse livro que eleito com a melhor obra de ficção da história por críticos literários em 2002, traz algumas reflexões sobre os líderes mundiais. O poder pode se tornar um vício para muitos líderes, que de alguma maneira desejam continuar ininterruptamente envolvidos nos processos de decisão mundial. Assim como narra Cervantes, um cavaleiro que sai pelo mundo lutando contra os agravos e coisas erradas que vê – ainda que completamente sem juízo e razão, há líderes que parecem cegados por algum fator externo e que passam a viver mais fantasia do que realidade.

Por vezes, o próprio Sancho Pança, apesar da ilimitada cumplicidade ao seu líder, parece duvidar de suas histórias, promessas e crenças. A tradicional divisão entre política interna e externa parece um bom pano de fundo para a correlação entre Don Quixote e os nossos líderes. Quantas não foram as vezes que um líder não bradou pelos mais caros valores nacionais frente a qualquer crise que ameaçasse sua popularidade, sejam nacional o internacional. A tentação de utilizar-se de subterfúgios é imensa, poucos são as pessoas que não preferem culpar outros por seus próprios erros.

O jogo diplomático, contudo, ainda pode ser considerado o principal campo em que os líderes são afetados pela Síndrome de Don Quixote. Como bem cita Sombra Saraiva, interesses são camuflados na forma de valores. O eixo do mal, a ameaça a democracia, o perigo das armas de destruição em massa, entre tantos outros exemplos na história, nos mostram que a ilusão e a imaginação de Cervantes para criar seu personagem, já encontraram luz em eventos nas Relações Internacionais. Há loucura nas Relações Internacionais, pessoas cegadas por ideologias? Ou simplesmente interesses?

Como toda pessoa sem juízo, Don Quixote encontra muitas pessoas que preferem deixar-lhe viver seu sonho, afinal é só mais louco no mundo. Nas Relações Internacionais, no entanto, uma pessoa sem juízo é suficiente para causar estragos que podem levar décadas para serem dirimidos. No jogo das decisões políticas de todas as esferas existe uma loucura aparente, tal qual do nosso cavaleiro andante, advindas de leituras de grandes teóricos políticos e desventuras de outrora. Parece neste caso, ainda assim, que toda a loucura está revestida de um interesse, ao contrário de Quixote que tanto ler e ouvir falar de aventuras, terminou inocentemente insensato.


Categorias: Cultura, Política e Política Externa


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