A saga continua…

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E continua a saga das eleições presidenciais no Egito. Passado mais de um ano após a renúncia de Hosni Mubarak, o país ainda encontra-se sob os auspícios das Forças Armadas. Desde as eleições parlamentares, começaram a ser realizadas no final de novembro e estenderam-se até o início de março, que a situação não anda lá muito bem (para mais sobre esse tema no blog, clique aqui e aqui)

De protestos em protestos, caminhamos para outro embate violento entre os militares e a população na última sexta-feira. Tudo começou no dia 02, quando manifestantes islâmicos acampavam a frente do ministério da Defesa e foram surpreendidos por agitadores que atentaram contra eles violentamente. A demora de ação da polícia e dos militares levou a população a questionar se, como no violento jogo de futebol no início de fevereiro, o governo não teria algum envolvimento. 

Assim, a odisseia tem chegado a momentos decisivos. Acirraram-se os protestos contra os militares, para que o governo seja entregue aos civis o mais breve possível. No dia 04, novos manifestantes dentre eles membros da Irmandade Muçulmana, percorreram um longo trajeto, iniciado na emblemática “Praça Tahir” e concluído no ministério da Defesa, sob a exigência de um governo civil antes de Julho (prazo estipulado pelos militares). O resultado não foi lá muito positivo. O que se viu foi muita violência entre representantes das Forças Armadas, manifestantes e a polícia, resultando em 296 feridos, 170 presos, 3 dias de toque de recolher, 1 morto e o futuro do ideal de controle civil sobre os militares, incerto. 

Números desanimadores para um país recém saído de um regime autoritário e em busca da tão sonhada democracia. De um lado, os militares afirmam que se planejassem um golpe de Estado, já o teriam feito há tempos. Mesmo porque não chegariam até aqui para só um ano depois realizar o golpe. De outro, os civis acreditam que os militares já estão se acostumando com o poder e a violência com que tem reagido aos protestos pró-democracia seriam o maior exemplo disso. Não é a primeira vez e nem a última que veremos militares no poder com dificuldades de lidar com manifestações civis e demandas populares. 

Mesmo porque as doutrinas militares denotam justamente o oposto do questionamento e diálogo, a subordinação e respeito à ordem estabelecida. Até o momento tem-se seguido o cronograma de eleições fixado no ano passado (clique aqui para conferir novamente). Há até certa divisão da intenção de voto da população entre os candidatos, Amre Moussa (ex-secretário da Liga Árabe), Abdelmoneim Abdul Futuh (islamita moderado) e Mohammed Mursi (representante da Irmandade Muçulmana), e que, diga-se de passagem, mal sabem suas atribuições, pois ainda não há uma Constituição no país. 

O cenário é complexo e inusitado. A maior parte dos egípcios ainda vive a ansiedade de construção do país pós-revolução e, não sem fundamento, teme que não seja desenvolvido um arcabouço significativo de controle civil sobre os militares. Protestos são uma boa forma de testar os limites da democracia que a Junta Militar pretende implantar. O governo já fala de nova constituição antes mesmo do novo presidente assumir (já houve alguns avanços no parlamento). Será que buscarão limitar o poder dos chefes de Estado ou manter a autonomia militar? Muita água ainda irá rolar sob os desertos egípcios.


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