A Rússia, caindo?

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Nesse começo de semana em que os desastres navais da Itália e da Coreia ocupam as manchetes, com o afundamento de um navio de cruzeiro que vitimou até o momento seis pessoas, e a explosão de um navio tanque em que morreram cinco tripulantes (que está atraindo menos atenção por que não houve relato de vazamento, felizmente, mas se formos pensar é um caso bem mais sério), vamos falar é da Rússia, do desastre que não ocorreu (e sobre o qual comentei ontem), a queda da sonda russa Phobos-Grunt, e como isso nos mostra o estado de coisas no Kremlin.

 

Explicando rapidamente, essa era uma sonda que ia para uma das luas de Marte (Fobos) para trazer de volta material do solo para pesquisa. Seria a grande retomada do programa espacial russo, que ano passado completou os 50 anos da viagem histórica de Yuri Gagarin, o primeiro cosmonauta. Claro que não houve muito o que celebrar, já que todos as missões “comemorativas” tiveram problemas, e o mais grave foi o dessa sonda, que teve um defeito grave no lançamento, em novembro, e perdeu o rumo, ficando à deriva na órbita terrestre até cair de volta. O grande perigo era o fato de ser uma sonda ainda completa, com combustível nuclear e tudo mais, o que poderia representar uma calamidade se caísse em áreas povoadas, o que deixou a mídia em polvorosa. Felizmente parece que já caiu no Pacífico, o lixão dos programas espaciais, e estamos a salvo desse bombardeio nuclear.

 

Claro que, para a Rússia, o estrago já foi feito, e demonstra como as coisas andam mal por lá. Um programa espacial depende de muitos detalhes, em que o mínimo erro pode por a operação toda, e milhões de dólares, a perder – e quando uma sonda que devia ir pra Marte não sai nem da órbita da Terra, coisa boa não é.

 

 

No fundo, isso tem muito a ver com a crise política, que já comentamos aqui e aqui, parece avançar, com a expectativa de uma reforma política (que já deu seus primeiros passos com a retomada da eleição direta regional de governadores) e que enfraquece o governo. Um país com falta de coesão interna não consegue se sustentar para fora. E esse é o grande drama da dupla Putin-Medvedev, que ainda tem essa aspiração de trazer a Rússia, assento permanente do Conselho de Segurança à parte, de volta ao seu status de potência mundial – mas já começa a faltar apoio interno. Não é questão de falta de dinheiro (que o diga a produção de gás natural do país), mas sim como ele é aplicado. Iniciativas como as missões do programa espacial entram nesse contexto, muito mais de prestígio que científico, e quando uma missão desse naipe fracassa, faltou incentivo em algum setor, de pessoal aos equipamentos.

 

Outro caso que mostra isso é o do setor de defesa: a Rússia sempre teve material de primeira, e mesmo hoje em dia está desenvolvendo, por exemplo, aviões de combate de última geração. A diferença, é que hoje estão dependendo de parceria com países como Índia e China pra fazer isso, enquanto o equipamento efetivo de suas forças armadas é bastante antigo. Pra ter uma ideia, vejam essas fotos de aviões russos sendo escoltados (já que têm a mania de invadir o espaço aéreo de países europeus e dos EUA mesmo após o fim da Guerra Fria) pra ter uma noção de há quanto tempo esses Tupolev estão operando.

Diz uma piada recorrente que os aviões russos vão voar até que estejam desmontando. Isso é sinal de falta (ou mau uso…) de recursos para esse tipo de setor, o que é uma coisa muito grave para um país que quer voltar a ser protagonista do cenário internacional. E a queda da sonda Phobos é sintomática disso tudo, em que a Rússia quer ter esse dinamismo ao mesmo tempo em que enfrenta desafios no terreno político, a exemplo da corrupção e da insatisfação política com os rumos que anda tomando.


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