A roda da história

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A história se repete. Ora como tragédia e ora como farsa, já disse Marx. Talvez fosse como tivéssemos uma equação histórica para eventos na qual só seria alterada a característica das variáveis. E o povo inglês veio a sentir isso depois de quase 30 anos. Desde 1979, sob os auspícios da dama de ferro, Margareth Thatcher, que a Inglaterra não passava por uma greve geral do setor público nas proporções daquela que ocorreu durante essa semana.

Eram tempos difíceis, a comunidade internacional sentia os ônus do grande otimismo depositado no petróleo (foi até o ano que o famoso milagre econômico do Brasil teve fim…). O choque do petróleo tinha elevado os preços do barril na casa dos 400% (de US$ 2,65 para US$11,65 no início de 1973 e para US$ 80 em 1979) em um curto período de quatro meses. E sobraria para a população pagar os custos sociais de toda essa brincadeira (clique aqui para uma reportagem que retrata discursos de várias pessoas que viveram o período).

Hoje, a comunidade internacional ainda está inserida em um bafafá semelhante. Só mudaram as variáveis. O otimismo do petróleo passou para o dos bancos, da desregulamentação financeira e das dívidas públicas. Os custos sociais até são parecidos. Desemprego e insatisfação baseados em ações dos governos. O projeto do primeiro ministro Cameron de aposentá-los mais tarde e reduzir suas pensões foi o estopim para todo a greve geral. Já em 1979, a tentativa de estabelecer uma regra para o aumento salarial de no máximo 5% engatilhou as demandas por um salário mínimo de 60 libras e uma jornada de trabalho de 35 horas por semana.

Hospitais e escolas pararam em ambos os casos. Histórias de mulheres grávidas que precisaram de hospitais, cirurgias canceladas e pais que teriam que levar seus filhos para o trabalho se repetiram. Em ambos os casos a organização do povo tem um recado claro e bem direcionado para o governo local: insatisfação. Por que raios teriam que receber as perdas de um sistema do qual não recebem os ganhos?

A grande diferença entre 1979 e hoje é o caráter da crise. Anteriormente, tínhamos a crença em um único produto e, no momento atual, temos a crença em um sistema: o dos bancos. E, como na década de 1970, os governos tem grandes dúvidas de como proceder. Austeridade, exclusão dos países deficitários da zona do Euro ou solução conjunta (aqui para um artigo interessante sobre o tema)? Nenhum dos caminhos é claro (a Inglaterra está dependendo principalmente de seu comércio externo para sustentar suas complicadas contas, clique aqui para artigo) e muito menos um remédio milagroso. Cabe ainda muita incerteza nesse cenário. E, enquanto há espaço para incertezas, a roda da história nos mostra que para o povo há somente uma certeza. A de sofrerem grandes efeitos sociais.


Categorias: Economia, Europa, Política e Política Externa


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