A Revolução Cidadã está em curso?

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Durante as transmissões em televisão aberta da Copa do Mundo aqui no Equador um fato me chamou atenção. Um dos principais anunciantes é o governo equatoriano, o slogan: “Liberdade de difamação não, liberdade de expressão sim”. Em realidade, eu já tive a oportunidade de ver outras peças de publicidade, parte da mesma campanha do governo, na qual um pai de família está brincando com seu filho em uma piscina plástica quando uma série de ataques parte diretamente de seu televisor, culminando com o lançamento de flechas que rompem a piscina e ameaçam ao pai e ao filho. A campanha é simples, contra o abuso das grandes corporações midiáticas que distorcem as informações e impedem o cidadão de obtê-las de forma acurada.

O Ministério da Indústria e Produtividade (MIPRE, em espanhol) investiu um milhão de dólares nesta campanha, sendo metade deste valor reservada para publicidade durante a Copa do Mundo. A questão é que está em discussão no Congresso Equatoriano uma nova lei para regular atuação para a Mídia, em que Rafael Correa tem interesse direto. Não é novidade o fato de governos de corrente populista terem sérias discordâncias com os veículos midiáticos. No caso específico equatoriano, os slogans são um tanto quanto apelativos, seguindo o já citado vêm: “Dizem que querem um país livre, para roubar” ou “Dizem que querem um país livre, para a ditadura da mídia”. São ataques firmes e sistemáticos contra a atuação deste setor no país.  

Confesso, que como estrangeiro e apesar de graduado em Relações Internacionais, não posso entender completamente as discussões nesta temática e tenho uma visão parcial da discussão baseada em minhas próprias pré-concepções, incluso me aproximo de uma posição solidária à mídia. São simples minhas razões, o exemplo de Hugo Chávez na Venezuela e mesmo a relação do governo Lula com a imprensa brasileira. O primeiro caso é o mais emblemático para o debate equatoriano, pessoalmente imaginar um governo com controle sobre o setor em questão me parece extremamente perigosa, os vorazes ataques de Chávez a seus opositores somados ao uso de mídia oficial ameaçam e restringem a liberdade de discussão, opinião e expressão do cidadão. Rafael Correa, como bolivariano que é, parece trilhar caminho semelhante. Com relação a Lula e os veículos de comunicação brasileiros, mais um exemplo de críticas a cobertura que se oferece, posicionando a mídia como inimiga do povo, assim como a explosão de gastos com publicidade oficial.  

Rafael Correa, obviamente, não é muito popular junto às classes mais altas do país, tampouco nas regiões mais industrializadas e desenvolvidas. Sua base de sustentação é a população alvo de sua revolução cidadã. Minha opinião, como outsider, está baseada justamente nisso. A batalha de Correa é mais ampla do que simplesmente contra a mídia, mas se estende as grandes corporações e aos interesses daqueles que ganham com a desigualdade social e a má distribuição de renda – que foram, de certa forma, prejudicados pelo atual governo.  

O tema, no entanto, não pode ser analisado sob esta visão simplista. Em realidade, vai mais além, passando pelo desenvolvimento da democracia, o poder da comunicação (sob todas as formas) e a tendência ao autoritarismo junto aos governos bolivarianos. Em teoria, estamos vivendo sob um modelo de livre-comércio, livre-iniciativa, liberdade de expressão, eleições abertas e acesso do cidadão – em alguma medida – as decisões que lhe concernem. Consubstanciando, assim, o modelo democrático, qual seja, a vitória do oeste contra o leste e da democracia ante ao comunismo; capitalismo subjugando o socialismo. A queda de braço, em especial nos países de governo bolivariano, coloca o Estado (representado pelo Governo) contra as Corporações Privadas, que só ganharam espaço nas últimas décadas. Não é completamente negativo combater a mídia, frente a sua atuação por vezes abusiva e parcial, contudo, tampouco parece positivo deixar um governo – qualquer que seja – com controle sobre o setor. A guerra parece longe de acabar. Esperemos que o modelo democrático contemporâneo seja o grande vencedor.  


Categorias: Américas, Mídia


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