A revolta por mais educados

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“A educação sozinha não transforma a sociedade, mas sem ela tampouco a sociedade muda”

Essa é uma bela lição apresentada por Paulo Freire, grande educador brasileiro. De fato, a educação talvez possa não ser considerada como o único agente da mudança social, mas com toda certeza age como seu combustível e participa desse processo. Um combustível que tem sido capaz de urgir mudanças nos próprios sistemas educacionais mundo a fora.

Em outras palavras, a busca por maior nível de estudos pode vir a tornar-se uma transformação por si mesma. E é isso que os manifestantes têm visado no Chile. A busca de novas regras no sistema educacional para trazer alterações significativas na sociedade. Nesse sentido, o objetivo desse post é mostrar algumas das características do polêmico e louvado método chileno e onde os protestos dos estudantes se inserem nessa história toda.

Desde os anos 1980, com a onda do “libera geral” que os ideais do neoliberalismo sugeriam aos países sul-americanos, que todos os tipos de educação no país tornaram-se pagos. Isso mesmo, desde as privadas até as públicas. Todavia, esse mesmo ponto controvertido também foi louvado por muitos quando o Chile é considerado o país com o melhor sistema educacional em avaliações internacionais.

O que ocorre é que, basicamente, o governo subsidia as instituições de ensino, em todos os graus, havendo, portanto, colégios públicos e particulares que são propriedades de instituições, fundações e pessoas, mas recebem dinheiro do governo. Paralelamente, o país conta com um rígido exame de professores e processo de especialização que trás bonificações aos melhores e pode levar os piores ao desemprego. Mas os altos custos nunca impediram que muitos chilenos buscassem estudar, mas que também trouxe consigo um grave ônus: o endividamento pessoal. Assim, o financiamento privado estudantil tornou-se essencial para a maioria daqueles que não poderiam arcar com os custos dos seus estudos de qualidade, podendo trazer dívidas para uma vida toda. E esse é justamente o ponto mais controverso que uniu os estudantes e tem sido capaz de angariar apoio até mesmo de não-estudantes por todo o país.

Sabendo do caráter mais explicativo desse texto e para evitar de me estender muito mais, julgar se esse é o melhor sistema educacional do mundo ou não é complicado, até porque cada país deve criar regras adaptadas à sua realidade histórica, e o que é bom para uns pode não ser aplicável a outros lugares. Mas o ponto é que, melhor ou não, público ou privado, a sociedade está se organizando na maior manifestação desde a década de 1990 e tem buscado propostas que visam maior acesso aos estudos por toda a população. Por isso, no Chile, havendo grandes rupturas ou não, a educação, lentamente, já está realizando sua mudança. Fica a lição.

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Categorias: Américas, Polêmica


2 comments
Raphael Lima
Raphael Lima

Pode ficar tranquilo que daqui não virão pedras. Talvez hajam discordâncias, mas pedras jamais. Mas, aproveitando o espaço, de que maneira você pensa isso? Se você puder explicar melhor esse ponto de vista seria interessante.

Mário Machado
Mário Machado

Serei herético por um instante, mas a meu ver a "pedagogia do oprimido" e os escritos freirianos são em parte um dos responsáveis de nosso atraso educacional. Que venham as pedras.. :)