A reunião de cúpula da UNASUL

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Reunidos hoje em Bariloche, os 12 presidentes da UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) colocaram em pauta a principal querela regional das últimas semanas: as bases americanas na Colômbia – na verdade a extensão de seu efetivo militar e a liberação do uso de sete bases em território colombiano. A distensão, apregoada por Marco Antônio Garcia, assessor para assuntos internacionais de Lula, não foi a tônica do encontro. Chavez bradou, como de praxe, sua discordância em relação ao acordo militar entre Colômbia-EUA, afirmando que esta levaria a um aumento da mobilidade norte-americana no continente, fato este agravado pela reativação da Quarta Frota americana.

Apesar dos esforços, como do presidente brasileiro, no sentido de abrandar as discussões, enfocando o rearmamento do continente como um todo (incluindo aí a própria intenção brasileira), o foco não saiu de Álvaro Uribe. O presidente colombiano defendeu que o acordo com os EUA não afeta a soberania de seu país, nem tampouco representa um risco ao continente, pedindo ainda a condenação das atividades da guerrilha e paramilitares. A reboque de Chavez, vieram Rafael Correa, presidente do Equador, e Evo Morales, presidente da Bolívia, que criticaram veementemente o governo colombiano. A cúpula ocorreu em clima de tensão, mesmo ante tentativas da anfitriã Cristina Kirchner e de Lula de apaziguar os ânimos.

De concreto mesmo ficou a declaração da cúpula, que pede ao Conselho de Defesa da UNASUL para elaborar mecanismos que ensejem confiança e segurança na região, garantindo o irrestrito respeito à soberania, integridade e inviolabilidade territorial na América do Sul. Estas medidas incluem o combate ao narcotráfico, ao contrabando de armas e ao terrorismo. Além disso, durante as discussões, Lula e Cristina Kirchner exigiram garantias que a expansão do acordo militar colombiano não implicará em ingerências em terceiros países. Fora os três líderes amplamente contrários as existências de bases norte-americanas no continente, Chavez, Morales e Correa, os demais países encontraram como ponto de convergência a necessidade de maior transparência, incluindo conversações com Obama a respeito dos objetivos e papel de seu governo no continente.

O governo Bush foi um grande impulso para a expansão do anti-americanismo no continente. O diretor da revista americana Foreign Policy chegou cravar que a América Latina é um continente perdido para os norte-americanos. Obama não sinaliza uma mudança significativa; seguindo a mesma política do seu antecessor, qual seja, ampliação do Plano Colômbia e da vigilância sobre o nosso continente. A prática não é exclusividade para os latinos-americanos, mas está espalhada pelo mundo. O fato é que, apesar de não defender publicamente ações deste gênero, tal qual Bush, Obama escolheu o silêncio desta vez. Enquanto isso, os governos latinos se armam para uma (real ou imaginária) guerra assimétrica. É pouco provável que os EUA levem a cabo uma ação militar contra o continente, mas a sabedoria popular ensina que cautela nunca faz mal a ninguém. O Brasil, tal como exposto na Estratégia de Defesa Nacional, está se preparando para ambos os cenários, seja a paz ou seja o conflito – não necessariamento com os norte-americanos.

Será que Obama cumprirá sua promessa e construirá um novo paradigma para o relacionamento entre EUA e os países latino-americanos?

Veja os vídeos da cúpula aqui.

E um infográfico sobre as bases norte-americanas na América Latina aqui.


Categorias: Estados Unidos, Organizações Internacionais


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