A rede e o outro

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Não é surpresa alguma que hackers simpatizantes ao Estado Islâmico tenham feito o que fizeram essa semana, tirando do ar por horas várias redes de televisão de um conglomerado francês. Antes de tudo, a linguagem da informática é eminentemente matemática, com sua lógica e condicionais, e todos sabem que os orientais são muito melhores nisso há alguns milênios. Por isso chamamos nossos algarismos de arábicos e se vê a quantidade de asiáticos no Vale do Silício. Mas o elemento importante aqui é a aparente contradição dos métodos com os objetivos do grupo.

Oras, o ISIS tem por meta restabelecer um califado à moda antiga na Síria e no Iraque. E portanto rejeita não apenas o modelo de funcionamento do Estado moderno, mas o próprio modo de vida ocidental. E para isso… usam boa parte da tecnologia que esse próprio modo de vida originou. Por mais que seja um desenvolvimento técnico, não teríamos a internet que conhecemos hoje sem a popularização do computador pessoal e da própria rede como um ambiente de negócios e lazer. Há uma certa dose de ironia nisso tudo.

Mas o mais interessante é que provavelmente o ataque não veio do ISIS. Ou pelo menos dos membros “oficiais”, que estão lutando contra curdos e peshmergas com rifles e facões no deserto. Como já discutimos no blog, a sociedade da informação atual propicia o surgimento dos simpatizantes a certas causas de maneira espontânea, e em qualquer lugar. Os terroristas do jornal e do mercado não eram sírios ou iraquianos, mas franceses, descolados da sua própria sociedade e atraídos para a forma de protesto mais radical contra sua condição.

Do mesmo modo, ainda nem é possível saber de onde vieram os ataques. É bem plausível que os hackers da TV5 sejam franceses, atacando do próprio território europeu em apoio a seus colegas islâmicos. O impacto vem em duas frentes, tanto pela repercussão do ataque, extremamente refinado e robusto, que deixou 200 países sem um canal francês, e ao mesmo tempo nos leva a refletir sobre a condição da sociedade contemporânea, que tanto é causa (em parte) do fenômeno terrorista quanto oferece os meios mais eficazes para que seja empreendido, da cooptação e recrutamento à execução dos atos.


Categorias: Conflitos, Europa, Política e Política Externa


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