A "punição exemplar"

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Antigamente, se via muito a aplicação da chamada “punição exemplar”. Execuções horrendas, como esquartejamentos, serviam justamente para confirmar o poder de quem manda na ordem do momento (seja um governo, democrático ou não, seja um tirano) e colocar medo naqueles que estariam envolvidos para evitar a recorrência dos atos que levaram à punição. Basicamente, a mesma ideia do encarceramento, mas de um jeito horripilante e com muito mais impacto. É diferente do “bode expiatório”, quando colocamos toda a culpa em um certo indivíduo para livrar a cara de outros.

Pois bem, como hoje em dia não pega muito bem desmembrar gente em público (apesar da tradição da pena de morte em alguns lugares persistir), ou quando a situação escapa de “dentro” do Estado, o jeito encontrado para alcançar aqueles dois objetivos se tornaram bem mais sutis. Estamos vendo um pouco disso nos casos recente de vazamento de informações internacionais. O mais quente é o do brasileiro David Miranda, detido pela polícia britânica durante sua passagem pelo aeroporto de Londres por cerca de nove horas em decorrência de artigos no mínimo questionáveis da lei antiterrorismo do país. Durante esse período, para não ser preso, o brasileiro teve de responder questões pessoais, entregar senhas e teve seus pertences confiscados. O que isso tem a ver com terrorismo? Miranda é parceiro de Glenn Greenwald, o jornalista que jogou na mídia a bomba das revelações de Edward Snowden, e aqui as coisas começam a ficar estranhas. 

O governo britânico justifica que a detenção foi feita com base legal e no interesse dos cidadãos britânicos, de que os dados nos pertences poderiam comprometer a segurança nacional. Mas é muito suspeito que justamente ele tenha sido “sorteado” para essa busca. Há um claro interesse por trás desse ato, simbolismo, mas o difícil é saber de quem partiu. A CIA? Os EUA? Serviços de inteligência? Aqui já estamos na área das conspirações, mas parece claro que temos um fenômeno recorrente. Pensem nas nebulosas acusações de abuso sexual contra Julian Assange que fizeram dele morador permanente da embaixada do Equador em Londres. Ou o jogo de gato e rato de Snowden com a inteligência dos EUA e sua demonização na mídia de lá. Ou a papagaiada do avião de Evo. São casos em que, se os governos não têm meios de agir diretamente contra os que atingiram seus interesses, ocorrem ataques “indiretos”. A mensagem é clara – de um jeito ou de outro, alguém vai pagar. Quem quiser enfrentar o mundo e revelar segredos dos países vai ter que ser muito liso e torcer pra que não envolvam suas famílias ou coisa do tipo no meio. E isso pra não contar quando existe o peso da lei – como o caso do soldado Manning, envolvido com os vazamentos do Wikileaks lá em 2010, que acaba de ter a sentença anunciada e conseguiu escapar de 90 anos na prisão para “apenas” 35

Mas é, estamos falando de conspirações ou suposições com base em fortes suspeitas… mas o que temos de concreto? Na semana passada o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, já tinha “puxado a orelha” do Secretário de Estado dos EUA sobre a vigilância. O caso de Miranda foi a gota d’água, e o Brasil condenou veementemente (e de um jeito até atípico) a atitude da Grã-Bretanha. Por muito menos que isso já rompemos relações com eles (nos bons tempos do Império), mas não deve ser para tanto. Talvez isso mostre o maior dano que os envolvidos na espionagem tenham: o diplomático. Esse demora para ser consertado, e a “punição exemplar” acaba tendo um efeito muito pior do que o dano que tenta evitar…


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