A princípio, uma guerra…

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Antes de começarmos o post de hoje, devemos prestar nossas devidas condolências pela morte de José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil. Poucas pessoas foram capazes de despertar tamanha comoção no povo brasileiro. Um exemplo grandioso de quem ficou de frente para morte em inúmeras ocasiões e ensinou que o sorriso, a simplicidade e a perseverança são as melhores armas, quando a força está debilitada. Um gigante parte para viver eternamente na história e em nossas memórias.

E a guerra na Líbia? Por lá, a situação não está nada fácil. A intervenção tem sido entendida como uma manobra precipitada, porém necessária. Depois de bombardeios, enfraquecimento das exíguas tropas de Kadafi e avanço dos rebeldes, os desencontros que precederam as iniciativas da coalizão começam a se acentuar. Para agravar, as manifestações se intensificaram no Iêmen e na Síria, enquanto o Bahrein já recorreu até as tropas sauditas para controlar os protestos.

No século XIX, o general prussiano Clausewitz disse que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Em sua assertiva, a política é entendida enquanto um ato de imposição da vontade. Na Líbia, a comunidade internacional quis o cessar-fogo. Kadafi rejeitou. Quando a palavra falha, a vontade é lançada à sorte das armas. Porém, trata-se de vontades – por exemplo, a busca do prestígio externo francês, ou o controle da imigração africana para a Itália –, no plural, e não uma única vontade, esta condensada no cessar-fogo. Essas vontades podem explicar a ausência de uma grande estratégia em relação ao cessar-fogo: derrubar Kadafi ou apenas proteger os cidadãos líbios, com a zona de exclusão aérea? Ou algo mais?

Esta estratégia não foi levada a cabo durante a discussão sobre o tipo de abordagem na Líbia, nem qual seria a estrutura de comando (até a OTAN assumir). Desacertos e inércias gritantes podem ter um preço alto. Em debate, está a queda de Kadafi pelos próprios rebeldes, os quais se converteriam na força terrestre – armados pelos países da coalizão (França e Estados Unidos já deram sinal favorável a isso) – para terminar o trabalho que a força aérea estrangeira iniciou. Aqui, retorna a iminência de uma sangrenta guerra civil; o pré-intervenção foi só o aquecimento.

Outra questão cara: e depois da queda? A coalizão, a OTAN ou qualquer outra organização ou país vai participar do processo de reconstrução da Líbia? Em nossa memória ainda fresca, permanecem as aventuras hercúleas no Afeganistão e no Iraque. Uma das últimas coisas que os interventores querem é plantar e cultivar a democracia em terreno pedregoso.

A guerra, quando fica órfã da política, toma caminhos sombrios e ainda mais incertos. Sem objetivos claros e com vontades ocultas e contrastantes entre os membros da coalizão, os três meses para “arrumar” a Líbia serão absolutamente insuficientes. Permanece também a dúvida se essa guerra pode se espalhar na região, no caso de contestadas lideranças vizinhas abusarem da força na repressão dos protestos. Mal se pensou a guerra, que dirá as suas conseqüências…


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