A política camaleão dos Estados Unidos

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“Tempo dos camaleões: ninguém ensinou tanto à humanidade quanto estes humildes animaizinhos. Considera-se culto quem oculta, rende-se culto à cultura do disfarce.” Assim escreve Eduardo Galeano em O Livro dos Abraços, assim agem os Estados Unidos nas relações internacionais. É tempo da política camaleão norte-americana, de ações em prol do desarmamento e da paz, desarmando os outros e assegurando a própria paz.

No último domingo, Barack Obama anunciou o fim da política de “engajamento” com o Irã; é hora de combatê-lo. E o combate se inicia com a expansão do sistema de defesa antimíssil na região do Golfo Pérsico – tanto em terra como no mar – para lidar com a suposta iminência de um ataque iraniano. As novas instalações abrangem o Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Bahrein. Não é a primeira vez que a postura norte-americana passa de um extremo ao outro. Mudam os teatros de operação, os contextos históricos, mas não as bruscas oscilações. O recrudescimento da Guerra Fria, após o término da détente – período de apaziguamento das tensões entre EUA e URSS -, foi marcado pela ativação projeto “Guerra nas Estrelas” do governo Reagan.

É evidente que a política de “engajamento” não dirimiu a desconfiança mútua entre Estados Unidos e Irã, entretanto, as relações bilaterais eram marcadas pelo pacifismo – ainda que instável – e pelo diálogo. Ambos os governos concordavam em lutar por um mundo sem armas nucleares. É claro, concordavam com reservas. Para o governo norte-americano, conter as aspirações nucleares iranianas é um passo fundamental nessa luta. Já para o governo iraniano, essa luta começa com o desarmamento de todos ao mesmo tempo. Enquanto alguém detiver armamento nuclear, outros também poderão deter. E quem está com a razão? Ótima pergunta, mas enquanto isso, as autoridades iranianas condenam a manobra militar norte-americana, afirmando que a mesma aumenta o sentimento de fobia para com os iranianos. (aqui)

Do lado dos Estados Unidos, o Pentágono entregou ontem ao Congresso o relatório da Revisão Quadrienal da Defesa, solicitando um aumento recorde dos gastos nessa área: US$ 708 para o ano de 2011. Em 2010, o orçamento disponível foi de US$ 664. A Folha de São Paulo de hoje apresentou as seis prioridades do relatório: 1) defender os EUA e apoiar autoridades civis no território; 2) vencer em operações de contrainsurgência, estabilização e contraterrorismo; 3) aumentar a capacidade de defesa de Estados parceiros; 4) deter e derrotar agressões em ambientes de conflito; 5) impedir a proliferação e conter armas de destruição em massa; e 6) operar eficientemente no ciberespaço. Ademais, para o secretário da Defesa, Robert Gates, tais preocupações refletem os “tempos de guerra” vivenciados pelo país.

Estariam, de fato, os Estados Unidos em guerra? Ou estariam inventando guerras, ou seja, transformando conflitos localizados em guerras generalizadas? (aqui) Depende de interpretações que se ajustem a interesses. Sem contar que o termo “guerra” tem uma conotação muito forte: lá fora, alguém nos protege e, aqui dentro, nossa economia vai bem. Cria-se uma falsa percepção de segurança, fomenta-se a indústria bélica e se lucra com as dívidas para a reconstrução de um país combalido. Uma arquitetura perfeita.

Não se pode deixar de mostrar também a benevolência e o heroísmo norte-americano no intento de legitimar suas necessidades e ações, as quais também seriam benéficas ao mundo. Os Estados Unidos, pela primeira vez, autorizaram o envio de aviões-robôs, os Predatores, para realizarem uma missão humanitária no Haiti. Aviões de guerra por uma causa humana: a tentativa implícita de convencer a opinião pública das esperanças do investimento em tecnologia militar. E, dessa forma, pode-se encerrar o post com o que continua Eduardo Galeano no trecho supracitado: “A lei da realidade é a lei do poder. Para que a realidade não seja irreal, dizem os que mandam, a moral deve ser imoral.”


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