A perda de um prestígio

Por

Apesar de ser um dos países mais criticados em todo mundo, há de se convir que os Estados Unidos sempre apresentaram uma posição de prestígio. A liderança que ocupa frente a diversas questões e discussões na sociedade internacional é notória.

O poder dos Estados Unidos vai muito além de sua capacidade militar e econômica. A influência que a cultura americana tem no mundo é incomparável. São os filmes de Hollywood, as séries de TV, programas de talk-show, a mídia que transmitem sem parar a todo instante os valores norte-americanos para quase todos os cantos do mundo.

O constante contato com esse gigante cultural pode ser percebido no dia a dia de diversos países diferentes. Países no mundo querem seguir o modelo de desenvolvimento norte-americano, que inspira prosperidade (pelo menos até antes da crise financeira) e assim buscam um alinhamento com este país.

No entanto, esta habilidade de fazer os outros países quererem o que os EUA querem não se dá de forma direta pelo uso da força econômica ou militar, mas sim pelo poder de atração e sedução, nos valores de liberdade, justiça e democracia. A esta forma de influência, o professor Joseph S. Nye Jr. chama poder brando. Assim, a utilização deste consiste no exercício do poder indiretamente, que permite que o país atinja os resultados que almeja apenas pelo desejo de outros países de acompanhá-lo, pois aspiram aos valores e ao desenvolvimento que apresenta.

Por outro lado não se pode descartar o grande poderio econômico e militar que os Estados Unidos ainda hoje apresentam. A utilização desse poder se dá de forma direta, através da indução ou ameaça a outra parte. Assim, ainda segundo o professor Nye, se constitui o poder bruto, que diferentemente do poder brando é baseado nos recursos (humano, tecnológico, industrial, comercial, entre outros) que certo país tem ao ser dispor.

Nesse contexto, a utilização desses dois poderes deve ser de maneira racional, não necessariamente equilibrada, mas sim estratégica. Em determinadas situações o uso do poder bruto faz-se necessário e em outras o poder brando é suficiente. Contudo, toda ameaça ou utilização da força bruta pode ser vista com maus olhos e mesmo gerar resistência na atuação. É a partir deste pensamento que devemos considerar os 8 anos do governo do presidente George W. Bush.

Os Estados Unidos foram alvos de um dos maiores ataques da história ao seu território. Basta pensarmos que tal fato não acontecia desde a segunda guerra mundial (1941 – Pearl Harbor). A reação do governo norte-americano se deu de forma imediata perante a situação promovendo um ataque ao território afegão na busca incessante de “caçar o responsável pelo atentado de 11 de setembro e todos os seus cúmplices”.

A partir disso a constante luta contra o terror terminou por gerar um outro grande terror no mundo. A invasão do Iraque, endurecimento das negociações com diversos países, tomada de posições polêmicas como o sistema de defesa anti-míssel na Europa, causaram muitos desentendimentos na comunidade internacional. Os Estados Unidos provaram estar acima de qualquer organização supranacional e que estaria pronto para fazer o que fosse necessário para garantir a sua segurança (ver National Security Strategy, setembro 2002).

O autor Noam Chomsky (O Império Americano,2004, p. 10) relata que estudos feitos no início de 2003 “revelaram que o medo inspirado pelos Estados Unidos atingira picos impressionantes no mundo todo, juntamente com a desconfiança em sua liderança política.”

Podemos perceber que, baseando-se nos conceitos enunciados pelo professor Nye, a política da administração Bush se valeu indiscriminadamente do poder bruto do país, ameaçando e promovendo um terror que em muito se assemelhava àquele que tanto repudiava.

O poder brando norte-americano não deixou de existir. Contudo não foi aproveitado conscientemente durante 8 anos de governo. Dessa forma, uma onda de anti-americanismo assolou o mundo e colocou em questão os valores tão defendidos por este país. Houve a queda do prestígio.

Interessante notar que logo após os atentados de 11 de setembro, alguns autores como o professor Joseph Nye neste trecho, já avisavam: “No século XXI, o poder repousará numa combinação de recursos brutos e brandos. E, nas três dimensões – a militar, a econômica e a do poder brando -, nenhum país é mais dotado que os Estados Unidos. O nosso maior erro, em semelhante mundo, seria cair numa análise unidimensional e acreditar que investir unicamente no poder militar garantirá a nossa força.” (O Paradoxo do Poder Americano, 2002, p.41)

Os EUA caíram e acreditaram.


Categorias: Estados Unidos, Política e Política Externa


0 comments