A outra Copa do Mundo

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Deu-se início ao evento futebolístico de maior consagração, a Copa do Mundo, com uma belíssima exibição dos Bafana Bafana, país sede este ano. Seleções enfrentarão as partidas de suas vidas nestes 30 dias que se seguem. Em outros campos do globo, a Copa do Mundo também chegou, mas não esperou quatro anos. Nem envolve o futebol. Pessoas jogam a partida de suas vidas literalmente e diariamente. A luta é, no mínimo, pela sobrevivência e, no máximo, pela dignidade, direitos inalienáveis dos seres humanos.

Assim rola a bola nos rincões não alcançados pelo glamour. De acordo com o relatório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), divulgado ontem, o fluxo de refugiados e de pessoas deslocadas em função de conflitos ou de catástrofes naturais aumentou em 1,3 milhão, quando comparado ao ano passado. Muito se deve as ondas de violência no Afeganistão e Iraque, os dois maiores desastres da política externa dos Estados Unidos. E, se depender do ímpeto norte-americano, a situação tende a se agravar, já que riquezas minerais foram descobertas em solo afegão.

Quando a bola é afastada para escanteio, quem aparece é o Quirguistão. Uma antiga república soviética que enfrenta o pior conflito étnico do país, ceifando a vida de mais de 150 usbeques. Cobrado o escanteio, o árbitro, representado pelo Conselho de Segurança da ONU, assinala pênalti. É penalidade máxima contra o Irã! As sanções foram adotadas e a União Européia cogita a feitura de sanções extras. Coitada da população iraniana. Mas é gol, gol das principais potências, apesar das insistentes reclamações do Brasil e da Turquia.

Após as comemorações, a bola é recolocada em jogo. Mal ele recomeça e já se faz um lançamento em profundidade, só que os atacantes estão à frente da defesa adversária. Impedimento! Pelo menos por enquanto, as duas Coréias mutuamente se acusaram no Conselho de Segurança, mas o órgão se absteve de tomar decisões baseadas nas suas reuniões. A confusão está lançada! Já no meio-campo, a partida permanece truncada, novos – e ao mesmo tempo antigos – surtos de discriminação contaminam a porção mediterrânea da Europa. Barcelona também proíbe o uso do véu, burca ou qualquer coisa que cubra o rosto em prédios públicos.

Na zaga, os norte-americanos tentam afastar aquilo que foi recentemente considerado um evento comparável ao 11/09, qual seja o vazamento de petróleo no Golfo do México. Por sua vez, é bom Israel, que já levou cartão amarelo, ficar esperta para não tomar o vermelho, evitando cometer faltas bobas. Mais do que nunca, é hora de rever o recorrente bloqueio a Faixa de Gaza. Tomara que desta vez possa se chegar a um resultado concreto.

Esta é Copa do Mundo desfocada dos televisores globais, aquela que acontece fora da África do Sul, nos resíduos da magia do futebol. Não se joga para erguer uma taça em seu esplendor, mas a vida em sua unicidade. E neste jogo não há espaço para a derrota e tampouco o importante é competir. Tem-se que ganhar. Ganhar para viver! Eis o lema, que permite a estrita oscilação entre a tragédia e o sucesso, sem a possibilidade do empate.


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