A obsessão brasileira

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Uma vez estive no palácio do Itamaraty e ouvi da boca de um dos embaixadores da mais alta patente, numa conversa nos corredores, que o Brasil teria o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU no fim daquele ano. Estávamos em agosto de 2007. E eu tenho testemunhas. O Ivan, por exemplo, estava comigo.

Nem preciso falar que não era verídico o comentário do embaixador.

Nunca na história dessa república um governo teve tanta obsessão por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. E agora, com a escolha do Rio como sede das Olimpíadas, o Lula não podia ter perdido a oportunidade de politizar a situação e disse que o Brasil está muito perto do tal assento.

Tudo bem, não preciso entrar em detalhes das diferenças entre o Brasil de hoje e o de dez anos atrás, principalmente no plano internacional, mas daí a dizer que estamos ‘muito perto’ do assento é demais. É óbvio que houve muitos avanços e o Lula merece o devido respeito por isso.

Mas há muitos problemas. Veja outro post relacionado aqui.

As trapalhadas em Honduras, o silêncio aos regimes ditatoriais na África, o apoio político a aliados polêmicos em detrimento de pessoas sérias, o relaxo com a amazônia, (que o Brasil parece ter percebido esses tempos, os flertes irresponsáveis com o Irã, o ‘comando’ da Missão da ONU para o Haiti, as incoerências, as malandragens com os vizinhos, entre inúmeros outros fatores internos mostram que o Brasil não estaria preparado para decisões de peso em termos de paz e segurança internacional. Inclusive porque só agora estamos pensando em melhoras as defasadas forças armadas.

Mas o pior problema nem se relaciona com os assuntos acima. Alguém realmente acredita que a China, Rússia ou até mesmo os EUA votariam, nos tempos de hoje, a favor de algum aumento dos membros do Conselho de Segurança? E o governo que não diga que não sabia dessa possibilidade.

Como membros permanentes, China, Rússia, Reino Unido, França e EUA podem vetar qualquer resolução do Conselho. Principalmente a que aumente o número de membros com o mesmo status que o deles. A França, por exemplo, diz que apóia o Brasil, mas e na hora do “vamo vê”, será que votaria mesmo a favor? E não haveria a tal reforma sem aprovação do Conselho de Segurança.

Os avanços do G-20 e do Brasil não alteram o atual quadro. E se aproximam o Brasil do tal assento, ele ainda permanece muito longe. Não há nem discussão séria sobre isso na ONU.

É como se o Brasil tivesse dado um passo numa longa caminhada. Mas ainda falta muito caminho.


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