A nova modalidade de guerra

Por

Em qualquer momento de dificuldade econômica, política ou social, os líderes mundiais se esforçam para diminuir os prejuízos de seu país e assim manter sua reputação. Há muito se fala do valor artificial do yuan, a moeda chinesa, que mantida desvalorizada tem sido um elemento importante na competitividade da economia local. Quanto menor o valor de sua moeda em relação às demais, maior a lucratividade atingida através das exportações. Todos sabem que a China está assentada sob tal premissa.

O mundo globalizado gerou inúmeros benefícios. A vida ficou mais fácil, as distâncias mais curtas e a economia mais dinâmica. Por outro lado, torna-se impossível escolher o isolamento ante os fluxos financeiros, comerciais e econômicos internacionais. Tal qual um vírus, decisões nacionais soberanas ocasionam fortes efeitos no sistema internacional. Nenhum país quer pagar a conta pelos outros ao mesmo tempo em que ninguém paga sua própria conta voluntariamente. Isso vale para as finanças, mudanças climáticas, políticas cambiais, entre outros temas.  

Um cálculo é simples, em teoria. O que um país precisa gerar para contra-atacar índices de crescimento negativos? Primeiro passo, diminuir a taxa de juros base da economia. Dessa maneira, os investidores teriam um incentivo a produzir efetivamente ao invés de manter seu capital em bancos ou fundos de investimento. Além disso, diminuir impostos sobre o consumo e fortalecer o mercado consumidor interno. Por último, entre as medidas mais populares, está a re-capitalização de bancos, o que favoreceria novos créditos a empresários e consumidores. Em teoria, tudo funcionaria na mais perfeita harmonia. Todos sairiam contentes no final e a crise viraria somente um amargo passado.  

O governo norte-americano, na última quarta-feira, anunciou um novo estímulo à economia local na ordem de 600 bilhões de dólares. O valor seria injetado na economia por meio do endividamento público, gerando maior liquidez justamente para fomentar o crédito. Vale lembrar que a taxa de juros dos Estados Unidos segue em seu nível mais baixo na história. Aí está o gérmen da nova modalidade de guerra. Na prática, os estímulos econômicos anteriores pouco geraram os efeitos idealizados novamente nessa semana pelo Fed (um espécie de banco central norte-americano), mas terminaram, ao contrário do preconizado, migrando para os mercados emergentes – que pagam taxas de juros maiores – como forma de gerar riqueza e não necessariamente produção. Os bancos e fundos de investimento, portanto, seguem apostando o dinheiro público, vendo inclusive seus lucros voltarem a patamares similares ao pré-crise.  

A guerra é um mecanismo utilizado para estabelecer uma vontade ou se fortalecer pelo enfraquecimento do inimigo. A política dos Estados Unidos gera distorções. A enxurrada de capital que busca refúgio nos países em desenvolvimento termina por valorizar a moeda destes países, prejudicando suas exportações, assim como não geram efeitos econômicos positivos a nível local. Esse é o motivo da proclamação de uma guerra cambial. Mesmo sem querer, o mundo segue financiamento o endividamento norte-americano. Na melhor versão do “homem como lobo do próprio homem”, de Hobbes, uns seguem ganhando aos custos dos prejuízos de outros. O contra-ataque pode tardar, mas está em gestação. O dólar segue perdendo valor no mercado internacional e paulatinamente tem sido substituído por moedas nacionais para trocas comerciais. Nada, ainda assim, que impeça a ciranda de seguir girando.  

Para saber mais: 1, 2, 3


Categorias: Economia, Política e Política Externa


0 comments