A nova Guerra Fria?

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O século XX foi marcado pela disputa política e ideológica entre os Estados Unidos e a União Soviética. Os dois países lideravam dois grandes blocos que representavam modelos de vida diferentes. A princípio, o Tio Sam tinha o foco na expansão de sua ideologia, enquanto que, a URSS preocupada igualmente com isso, também tinha ganas de conseguir mais territórios. Mas em uma coisa os dois quase nunca divergiam: a busca de denegrir a imagem do outro, construir signos negativos vinculados ao seu rival tanto pela mídia, filmes e propaganda até por leis e decretos. 

Desde os anos 1990 que as relações entre Rússia e os EUA estavam estabilizadas. Apesar de algumas divergências política e da existência daqueles sentimentos anacrônicos resultado da Guerra Fria, as relações bilaterais iam bem. Acontece que os últimos dias de 2012 trouxeram uma pequena mudança a esse estado de coisas. Uma troca de farpas causada por leis destinadas diretamente aos russos e americanos, promulgadas nos dois países, estremeceram as relações políticas entre os dois países

Tudo começou com o governo estadunidense aprovando uma lei referente a um problema interno da Rússia, o caso de Sergei Magnitsky. O advogado russo que rendeu nome à nova lei, foi preso em 2009 e acabou morrendo alguns dias antes de que completasse um ano na prisão, tempo em que poderia ser mantido em cana sem julgamento. O caso rendeu um grande bafafá internacional naquele ano, pois, a despeito de o governo russo apontar que ele faleceu em virtude de doença, as organizações internacionais de direitos humanos diziam que foi devido a maus tratos e violações de D.H. por oficiais da polícia russa. 

Bom, agora, 3 anos depois, os Estados Unidos resolveram retaliar os suspeitos de envolvimento no caso por meio de uma espécie de “lista negra”. O Ato Sergei Magnitsky, aprovado pelo congresso em Junho e pelo senado em Dezembro, pune os oficiais russos suspeitos de envolvimento no caso, dificultando-os de obter o visto e contas bancárias em bancos americanos. É de se esperar que o governo russo não veria com bons olhos o ato e, rapidamente, as retaliações vieram. 

Em 18 de outubro, os EUA e a Rússia assinaram um acordo regulamentando a adoção internacional de crianças entre os dois países. O tratado que entrou em vigor em 1 de novembro desse ano, foi revogado pelo governo russo. No dia 26 de dezembro, o parlamento deu um “presente de Natal” para famílias americanas, proibindo a adoção de crianças russas por americanos. Apesar de causar divergências entre os próprios russos, rendendo comentários negativos do ministro das Relações Exteriores, e questionamentos de Putin, a nova lei foi aprovada pelo voto de 143 senadores, nenhum voto contra e 42 abstenções. A justificativa dos parlamentares foi fundamentada em denúncias de mortes de pequenos russos nas mãos de pais americanos por maus tratos. 

Todavia, a medida “anti-Ato Magnitsky”, em números, não passará sem efeitos para crianças e adolescentes que iriam ser adotados. Em 2011, 1000 crianças russas foram adotadas por cidadãos americanos e, desde 1999, esse número chega a 45000. Somente nesse final de ano, serão 46 crianças impedidas de obter um lar devido à disputa ideológica entre Estados Unidos e Rússia. Há ainda a questão de que muitos americanos adotam crianças com necessidades especiais. Proibidos de adotá-las, provavelmente, irão busca-las em países vizinhos como a Ucrânia e Georgia, deixando essas outras crianças desamparadas. 

O governo americano acusa a Rússia de violar tratados internacionais (como a Convenção sobre os Direitos da Criança) e passar para as crianças o ônus das dificuldades bilaterais entre os dois países. Todavia, se de um lado, a Rússia irá prejudicar inúmeras crianças e ainda complicar as relações bilaterais, de outro, os EUA, pelo Ato Magnitsky estariam igualmente violando o direito internacional ao intervir em assuntos internos russos. Há, ainda, o risco dessa lista se alargar e passar a complicar a vida de outros russos que não necessariamente tiveram envolvimento com o caso, como já é de se saber que o ocorreu com o Ato Patriota. 

Outra vez existe uma disputa ideológica entre a Rússia e os Estados Unidos. Dessa vez, os EUA defendendo seu novo estandarte, os Direitos Humanos, escudo sob o qual já cometeu inúmeras atrocidades; e a Rússia transferindo os problemas dessa disputa bilateral para aqueles que não tem a capacidade de se defender, as crianças. Esses seriam os germens para o despertar de uma nova guerra fria entre os dois países. Ou, seria somente a manifestação de que, para muitos, ela nem veio a acabar.

[Para mais: 1, 2, 3, 4]


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