A Nigéria e a (falta de) perspectiva de diálogo

Por

Em meio a comemorações natalinas no mundo inteiro e festejos desejando bons ares a amigos e familiares, a situação da Nigéria nos últimos dias parece destoar deste contexto comemorativo. Na verdade, há muito pouco a se comemorar em um país em que a tolerância religiosa enfrenta tantos obstáculos e onde cristãos e muçulmanos possuem históricas dificuldades para compartilhar o mesmo espaço.

Tema pouco estudado na área de Relações Internacionais, a religião pode ser visualizada enquanto fator explicativo apenas em meio a uma abordagem construtivista (leia mais sobre o construtivismo nas Relações Internacionais aqui). A partir das noções desenvolvidas por esta escola teórica, valoriza-se a importância do campo das idéias, das crenças e dos valores enquanto pilares para a construção identitária e o jogo de interesses no cenário internacional.

Na Nigéria, desentendimentos entre cristãos e muçulmanos são recorrentes, visto que ambas as religiões são bastante representativas entre sua população e o diálogo não se mostra bem-sucedido (os cristãos predominam no Sul e os muçulmanos no norte do país). Os conflitos que já provocaram mais de 40 mortes nos últimos três dias possuem, destarte, sua origem em divergências religiosas, na medida em que igrejas no estado de Borno foram atacadas por muçulmanos radicais. Os principais atos de violência, contudo, foram visualizados no estado de Plateau, em sua principal cidade chamada Jos. (Assista a um vídeo sobre o assunto aqui.)

É importante notar a complementaridade entre as esferas da sociedade, na medida em que a atual situação crítica nigeriana não pode ser compreendida sem que as esferas econômica e política sejam também vinculadas à análise. A proximidade das eleições presidenciais no país (as quais acontecerão em abril) constitui um fator relevante neste sentido.

As Nações Unidas e autoridades religiosas condenaram as agressões que mancham o clima de paz e esperança predominante na época de Natal, sendo que o Exército tem patrulhado as áreas para evitar a continuidade dos conflitos (foto). Decerto, a única conclusão possível é que ainda há muito a se evoluir no cenário internacional para que populações diversas com crenças distintas possam compartilhar seu espaço e trabalhar para o desenvolvimento social pautadas no diálogo (e não na falta dele) – aspecto tão caro à teoria construtivista das Relações Internacionais…


Categorias: África, Defesa, Paz, Segurança


0 comments