A lista

Por

Quando a Andrea Citron escreveu que estamos mostrando os dentes, estava coberta de razão.

E o Brasil publicou recentemente a tal lista com os produtos que serão retaliados por conta do contencioso do algodão na OMC.

No ano passado, postei sobre o assunto quando o Brasil publicou uma lista preliminar com alguns produtos americanos que poderiam sofrer retaliação. À época, afirmei que a possibilidade de a retaliação ir pra frente era pequena. E, embora o Brasil tenha seguido com a idéia, não acho que seja alta a probabilidade de a medida ser definitiva (uma vez que entra em vigor somente 30 dias após a publicação). Se houvesse mesmo interesse de retaliação (e não de acordo), a aplicação poderia ser imediata. É uma questão política.

O que parece, pelo que está ocorrendo, como a publicação da lista em época da visita da Secretária americana de Estado, é que o Brasil quer mesmo um acordo com os Estados Unidos e não a retaliação pura e simples, o que é mais inteligente e vantajoso.

Alguns criticam e muito e mais um pouco a medida (aliás, a Miriam Leitão que me desculpe, mas acho que ela está criticando demais). Outros, elogiam.

Não é uma questão de defesa de interesses nacionais, como coloca o Sr. José Dirceu, mas também não é uma decisão inadequada e inoportuna como coloca a Sra. Miriam Leitão. É claro que a medida tem pontos difíceis de entender (como a questão do chiclete sem açúcar) e, com certeza, em alguma medida, o consumidor brasileiro será impactado com o aumento dos impostos de importação.

Mas o fato é que o Brasil tem todo o direito de tomar a medida. E quando afirmo que tem o direito, refiro-me ao fato de que a decisão foi referendada pela Organização Mundial do Comércio. Portanto, é uma decisão mais do que legítima.

E é legítima, inclusive, quando não sobretaxa somente o algodão, mas o que bem entender. Os subsídios dados pelo governo americano aos seus produtores afetam o comércio como um todo.

É legítimo também pontuar que os produtores brasileiros arcaram com os altos custos do processo e, por isso, deveriam ser os que se beneficiariam das medidas. Mas eles também sabiam que dificilmente seriam os únicos beneficiados em uma possível retaliação do Brasil, como é de praxe uma vez que a OMC determina que o direito de retaliação se refere ao valor dos danos causados e não ao setor de mercado envolvido.

Portanto, o Brasil está mais do que certo de usar essa “arma” para um acordo com os Estados Unidos. No entanto, não deve tomar esse trunfo como uma questão de defesa de interesses nacionais, porque, neste caso, subtende-se que o interesse nacional do Brasil é confrontar os Estados Unidos.

Mais uma jogada para o xadrez da política. Tomara que, desta vez, o Brasil consiga dar o xeque mate.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Organizações Internacionais, Política e Política Externa