A laranja seca

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UKRAINE-EU

Numa surpreendente reviravolta, a Ucrânia acordou hoje com a notícia de um acordo preliminar que restauraria a Constituição de 2004 e possibilidade de anistia aos presos nas manifestações e confrontos das últimas semanas. Um desfecho bastante interessante quando consideramos que ontem mesmo o presidente (em vias de defenestração) Viktor Yanukovich mandava a polícia mandar bala (literalmente) nos manifestantes gerando uma carnificina nos últimos dias com dezenas de mortes.  O que mudou nesse meio tempo?

Pressão internacional parece ser a primeira ideia. Lembramos que um dos maiores interessados nessa questão está ali do outro lado da fronteira, o russo Vladmir Putin, e a violência em Kiev estava tirando o brilho da imagem dos jogos de Inverno, que deveriam ter sido um show particular de pujança do governante. Parece um pouco tarde para contornar os estragos, mas certamente haveria interesse de Moscou em que as coisas esfriassem. Já os EUA estão interessados, mas muito mais para espezinhar a Rússia. Quem entrou com unhas e dentes na questão foi mesmo a União Europeia, que praticamente costurou esse “acordo” de paz, mas conseguiu apertar o governo ucraniano mesmo com uso das boas e velhas sanções. A Rússia deve perder influência e os ucranianos mostram claramente que rejeitam Moscou. Pressionado por todos os lados, o congresso expurgou o ministro do interior e cortou as asas do presidente enquanto Bruxelas aprova a tudo.  No fim das contas, é o único lado que parece ganhar com tudo isso.

Evitar uma guerra civil parece um triunfo daqueles, mas qual o significado disso? A anistia traz de volta a principal figura de oposição, a ex-primeira ministra Yulia Timoschenko, mas que não tem a força politica de quando conduziu a pacífica Revolução Laranja do começo da década passada. Escândalos de corrupção e brigas internas (como a que levou Yanukovich ao poder) mancham a política ucraniana, cuja população vê a associação à UE como uma última oportunidade de mudança e evolução contra velhos hábitos patrimonialistas lá da época dos soviéticos. As concessões de Yanukovich, que incluem antecipação de eleições, são sinais positivos, mas uma vez mais surge esse risco do “vácuo” de poder. Mesmo com um governo de coalizão entre situação e oposição, a falta de uma liderança que corresponda aos anseios dos protestos preocupa. O risco que a Ucrânia corre é proporcional à oportunidade que se apresenta, de passar uma borracha nos desmandos dos últimos anos, e literalmente começar de novo a revolução de 2004. Mas para isso é necessário ainda superar a onda de violência e confrontos, que ainda persiste e pode jogar por terra todos esses esforços caso não seja resolvida.


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