A invenção do inimigo: vidas contadas e histórias vividas

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[Antes de começar, gostaria de fazer uma menção especial: este post só foi possível graças às interessantíssimas aulas sobre Oriente Médio, ministradas pela Profa. Dra. Vânia Carvalho Pinto no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UnB.]

Por certo, já virou clichê falar dos vazamentos do Wikileaks e debatemos bastante isso no blog. Ainda assim, por essa peneira furada, muitos sedimentos impróprios têm caído sobre as areias do tempo, que agem na construção do edifício das relações internacionais. Para a surpresa de muitos, o maior inimigo dos árabes é o Irã, não Israel. Historicamente, o Irã é visto por eles como o “mentiroso” (liar) ou a “cobra” (snake). Na inversão dos adjetivos que Zygmunt Bauman sugere no subtítulo de sua obra A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas, é que procuraremos explicar esta confusão. (vejam o artigo)

Primeiro, conta-se a vida para depois vivê-la, uma história vivida. Escolhas demarcadas num horizonte de possibilidades preconcebidas. O inimigo é inventado, na seqüência, combatido. No marco da Revolução Islâmica, durante a década de 1970, exacerbou-se a construção da inimizade iraniana no mundo árabe. O medo de que o processo revolucionário se espalhasse e derrubasse as monarquias hereditárias – Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita – tornou o Irã uma ameaça concreta. Porém, como poderiam os reis justificar a necessidade de conter tal processo perante os seus súditos? Isso ficou a critério do Partido Baath e de Saddam Hussein, que recorreram à história.

O Irã não é de origem árabe, mas persa. Em tempos imemoriais, o Rei Ciro concedeu abrigo aos judeus que eram perseguidos pelo rei babilônio Nabucodonossor. Tal atitude passou a ser interpretada como uma clara afronta aos árabes. A recriação do mito serviu para definição de uma identidade árabe oposta à iraniana. Saddam aproveitou-se disso para assumir a liderança e a defesa do mundo árabe e se lançar numa guerra contra o Irã entre 1980 e 1988.

Mas por que voltou a ameaça iraniana, a ponto de a Arábia Saudita pedir que os Estados Unidos invadissem o Irã? Uma resposta possível seria o programa nuclear iraniano. Por mais que Ahmadinejad afirme que busca finalidades pacíficas e faça uma leitura muito precisa da realidade internacional acerca do desarmamento (vejam este discurso dele), nunca deixa de dizer que é necessário riscar Israel do mapa – isso porque, como vimos acima, os germens de Irã e de Israel já marcharam juntos. Luta também pela causa palestina, porém, nem assim é árabe. Persa não é árabe nesta vida contada para ser vivida! Além disso, predomina uma desconfiança no mundo árabe quanto à possível instalação de um regime secular no Irã que se dissemine pela região.

Já a relação entre as ambições – muitas vezes desmesuradas – e a própria biografia do líder iraniano é pouco vista. Pessoa de origem humilde, que trocou o nome anterior (Saborjhian, algo que denota a ocupação dos trabalhadores da indústria de tapete) para Ahmadinejad (raça do profeta), ao se mudar para Teerã, e que se envolveu intensamente com a política desde os tempos da faculdade. Em sua formação, desenvolveu uma visão extremamente negativa do Ocidente e, por extensão, a Israel. Ahmadinejad também inventa os seus inimigos, como fazem os árabes e os ocidentais.

As invenções, as vidas e as histórias permanecem no séquito árabe e no colóquio iraniano, na construção histórica persa-iraniana e nas tentativas de Ahmadinejad de dialogar e afrontar inimigos alhures, que não é árabe e nem si mesmo.


Categorias: Cultura, Defesa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


2 comments
meundo
meundo

Excelente publicação, parabéns pela postagem!