A invasão misteriosa

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Naqueles grandes filmes e romances policiais sempre há, no enredo, um crime misterioso. Todos eles começam quase que da mesma forma. Alguém morre. Um policial, detetive ou um interessado qualquer é envolvido de alguma forma na história. Começa-se, então, a buscar o tal assassino. A partir desse ponto que esses enredos podem mudar, sem que se altere esse esqueleto inicial. 

Mas e se, hipoteticamente, tivéssemos uma situação na qual se sabe claramente quem cometeu o crime, contudo, o alvo não é de conhecimento de ninguém. E, para piorar, uns juram de pés juntos que quem morreu foi Beltrano e outros confirmam que foi Fulano. Em um romance policial esse enredo talvez ficasse um pouco estranho. Contudo, para o Oriente Médio, é mais do que suficiente para gerar nosso mais novo bafafá internacional. 

Como comecei dizendo, não se sabe ao certo o que foi o alvo. Apenas que ontem houve um bombardeio de aviões israelenses em território sírio. O governo de Israel manteve aquela postura de sempre depois cometer alguma violação em território alheio. Silêncio. Agências de notícias dos Estados Unidos apontaram que, quase na fronteira com o Líbano, um carregamentos de mísseis antiaéreos de fabricação russa, os SA-17, foi alvo desses aviões. Já o governo sírio afirmou que as tais aeronaves voaram baixinho, abaixo do alcance dos radares, e destruíram um centro de pesquisa militar a 15km de Damasco. 

As condições nas quais o ataque ocorreu já são suficientes para render uma história interessante. Agora, adicionada essa completa divergência de informações, temos material para um best-seller. A situação toda é difícil de averiguar, principalmente, pela falta de detalhes do que tem ocorrido dentro da Síria, pelos locais que os supostos eventos ocorreram e pelo total silêncio de Israel. 

Olhando mais de perto o ocorrido, independentemente de qual das versões seja confirmada, houve aí uma clara violação de soberania da Síria. E, em caso de guerra civil ou não, invadir o espaço aéreo de um país e bombardear uma área qualquer (por mais ínfima que seja) sem o crivo da ONU é intervenção em assuntos internos. Basta lembrar de todo o problema que ocorreu na invasão do território equatoriano pelo exército colombiano para buscar o número 1 das FARCs em 2008 e das bombas e mísseis sírios que ultrapassaram a fronteira com a Turquia durante esse conflito atual (para mais, clique aqui). 

Uma violação que parece ter sido muito bem pensada por Israel, em caso de o alvo ter sido o carregamento de mísseis. Puro cálculo de estratégia e poder. Como o governo teme que o Hizbollah recebesse armamentos antiaéreos e conteste seu poderio de sua Força Aérea, destruir o carregamento enquanto ainda é transportado para o Líbano é a melhor forma de cortar o mal pela raiz. Isso porque, uma vez chegado no país vizinho, essas armas desapareceriam em estoques e túneis subterrâneos, podendo jamais serem localizadas novamente. 

Enquanto isso, do lado sírio, outro movimento foi muito bem pensado. O tal centro de pesquisa militar destruído foi, segundo a agência de comunicação do governo sírio, também alvo dos rebeldes, também conhecidos como CNFROS. Todavia, eles não tiveram sucesso em ocupá-la. Uma bela forma de ligar a atuação de Israel à Coalização para as Forças da Revolução e a Oposição Síria (CNFROS). 

A complexidade desse quase-romance policial cresceu ainda mais quando o Irã também anunciou que Israel poderia sofrer retaliações. O inimigo mortal do governo israelense aliado ao Hizbollah e a Síria de fato poderiam oferecer riscos. Mas no cenário atual, qualquer retaliação, por mais que não possa ser descartada, pode ser mais custosa que benéfica. 

A situação é complexa e, de certa forma, um retrato do funcionamento das relações internacionais no Oriente Médio. Uma região onde ainda a disputa pelo poder militar e o receio do crescimento do poder do outro são o imperativo. E que as forças armadas ainda ditam as regras.

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