A imitação da rosa

Por

[Post especial escrito pelo colaborador Giovanni Okado em uma singela homenagem do blog ao Dia Internacional das Mulheres. Ótima leitura a todas(os)!]

Laura, do emblemático conto de Clarice Lispector “A imitação da rosa”, é a personificação da condição das mulheres no novo milênio: um sinuoso caminho entre ambiguidades e epifanias.

A criação da ONU Mulheres em 2010, que atualmente é presidida pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet, é um marco no compromisso pela promoção da igualdade de gênero. Um marco que decorre de um longo processo histórico, ainda inacabado. Um processo que remonta, entre outros fatos, ideias incipientes do início do século XX, as manifestações das mulheres russas, os movimentos feministas, as conferências para as mulheres e a definição do 3º Objetivo de Desenvolvimento do Milênio em 2000: igualdade entre sexos e valorização da mulher.

No primeiro relatório anual da ONU Mulheres (2010-2011), Bachelet menciona dados significativos, como, por exemplo, de cada três adultos analfabetos, dois são mulheres, e uma mulher morre durante a gravidez ou no parto a cada 90 segundos. Isso para não dizer da discriminação e da violência cometidas contra elas, tratadas como naturalmente inferiores e, no pior dos casos, tornam-se espólios de guerra ou escravas, com os corações vazios e desarmados.

Um olhar global ajuda a compreender por que é preciso um dia especial para louvar as mulheres e para não se esquecer, como disse Joy Ogwu, embaixadora da Nigéria na ONU: o progresso das mulheres significa o progresso do mundo, já que elas representam metade da humanidade. Na Arábia Saudita, por exemplo, uma das sociedades mais fechadas do mundo, as mulheres são proibidas de dirigir e já se chegou a relacionar direção com estímulo ao sexo pré-nupcial. No Afeganistão, quando um casal só tem filhas, uma menina é obrigada a se vestir como menino até atingir a puberdade, seja por razões econômicas e sociais, seja por superstição.

Não obstante os desafios, nunca, nunca as mulheres abandonaram a causa. Saíram às ruas quando os ventos primaveris sopraram sobre o mundo árabe, ainda que os homens as mandassem de volta para suas casas. No ano passado, três mulheres foram laureadas com o Prêmio Nobel da Paz. Em Honduras, Julieta Castellanos se tornou símbolo da luta contra os cartéis de drogas. Na Arábia Saudita (novamente), um grande passo foi um decreto do rei Abdullah permitindo que as mulheres possam ser vendedoras de lingerie. Mesmo as conquistas aparentemente pequenas são revestidas de importante significado, como no caso saudita, em que a intimidade das mulheres finalmente é assegurada.

E o Brasil nesta história?

Os avanços brasileiros são amplos, a começar pela própria presidenta – a primeira mulher a governar este país –, o número recorde de ministras (10), o crescimento de 154% da presença feminina na FAB, a aprovação de um projeto de lei que determina multas para empresas que pagarem salário menor às mulheres que exercem as mesmas funções que os homens… Mas ainda há muito para se percorrer. De acordo com o Índice de Desigualdade de Gênero (IDG), o Brasil ocupa a 80ª posição em um ranking com 146 países. Por esse indicador, são avaliadas três dimensões: saúde reprodutiva, autonomia e atividade econômica. Para exemplificar, um dos aspectos do segundo critério mede a proporção de assentos parlamentares ocupados por cada gênero, e as mulheres brasileiras ocupam apenas 9,6% desses assentos.

Neste século XXI, há muitas conquistas, inércias e retrocessos para as mulheres. Não é fácil vencer em um mundo que se acostumou a temer a beleza de Afrodite e que reluta contra o amor. Por isso Laura continua sentada no sofá, contemplando e contestando, inocentemente, a rotina. É preciso que uma epifania irrompa com força suficiente para imprimir uma nova rotina, em que prevaleça a igualdade de gênero e o devido respeito a quem, desprovido do escudo do sexo, também é humano. Parafraseando a escritora ucraniana mais brasileira, as mulheres acreditam na igualdade de gênero e, por acreditarem, ela existe. Basta reconhecer!


Categorias: Post Especial


0 comments