A Hipocrisia Midiática

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Amiguinhos, vou me permitir pegar carona na deixa do Ivan e da Andrea sobre o que e como a mídia divulga e/ou omite notícias, e comentar uma que vi no site da UOL no meio da semana.

A notícia, veiculada na seção Estilo-Moda do citado site, dizia respeito a uma intervenção da polícia parisiense que proibiu uma mulher islâmica de nadar em uma piscina pública, trajando um “burquíni”(mistura de burca com biquíni). A inusitada peça de vestuário permite conciliar lazer e rígidas regras de recato impostas às mulheres que professam essa religião. A alegação para a proibição foi a de que não é permitido nadar com roupas que não sejam próprias para essa finalidade (leia toda a notícia aqui).

Não é a primeira vez que temos notícias do Estado francês interferindo na liberdade de expressão de seus cidadãos. Há alguns anos, o governo proibiu que alunas usassem véu nas escolas. A alegação dessa vez era de que a escola, por ser uma instituição laica, não toleraria manifestações religiosas de qualquer natureza.

Não é à toa que os imigrantes que residem na França, vez ou outra, se manifestam de forma exageradamente violenta, queimando carros nos subúrbios de Paris. Além de não conseguirem emprego com salários dignos, ainda são impedidos de se manifestarem pacífica e livremente.

Logicamente que a notícia de conflitos urbanos em países da Europa, berço da civilização, chama mais a atenção e vende mais jornal do que o cerceamento da liberdade individual. Isso sem falar que o fator político foi totalmente apagando quando se colocou essa notícia na seção de moda, apesar da menção feita ao presidente Sarkozy. Convenhamos: quem iria esperar ler uma notícia dessas em meio a tantas dicas de como se vestir bem e ao glamour das passarelas?!

Ficam aqui algumas perguntas que eu gostaria que os amigos leitores ajudassem a responder, para quem sabe, podermos dar a relevância que o assunto merece:

1) Até que ponto um Estado pode determinar o que é e o que não é bem vindo em seu território, quando se trata da cultura de outros povos?

2) A proibição do uso de trajes religiosos em um Estado dito secular e de tradição democrática não seria um atentado à liberdade de expressão e por consequência uma atitude autoritária disfarçada?

3) O presidente francês alega que a burca não é um traje religioso, mas sim um sinal de opressão e subserviência da mulher. Isso não é uma questão subjetiva? Será que para as mulheres islâmicas isso não é natural?

e por último,

4) Quão ético é a imposição de valores de Estados ditos desenvolvidos sobre outros ditos subdesenvolvidos? Aqui podemos usar como parâmetro um outro exemplo na tentativa de elucidadar a questão que é a imposição da democracia pelos EUA a países do Oriente Médio.

É isso, amiguinhos! Espero que possamos trocar idéias e esclarecer essas questões que a mim me parecem extremamente complexas e importantes.

Até mais!


Categorias: Europa, Mídia


8 comments
Ana Costa
Ana Costa

Mesmo se esvaziarmos toda a questão política e religiosa: que tal se no Brasil fosse definido que é obrigatório o uso de "fio-dental" para nadar em piscinas públicas ou outro país definir que só serão admitidas mulheres em "top less" nas piscinas? Eu sentiria isso como um atetado ao meu pudor, ao meu direito de usar a indumentária que eu considero adequada e de cobrir as partes do meu corpo que eu bem entender, ou seja, uma grande sacanagem!

Anonymous
Anonymous

ainda bem que ainda existam Andrianas nesse mundo! Noberto Bobbio agradece!

Leo.
Leo.

Adriana,uma sanção que não coaja não é sanção. Isso é algo bem básico e é visto nas relações internacionais sempre que se nota as pilhas de corpos de seus cidadãos que tantos governos empilham por ai.As normas internacionais são na melhor das hipóteses conselhos a menos que alguém tenha peito para as colocar em prática, deveria ser o conselho de segurança, mas a estrutura do mesmo foi feita para a não-ação.A lei afegã tem a mesma origem teórica da burca e nada mais é que um avanço no princípio por ela exemplificado, se pode a burca o resto vem junto (mulher não poder negar sexo ao marido por exemplo, e está até bom, antes era espancar e até matar sem culpa), no mesmo pacote de "cultura diversa". Cultura diversa esta que não necessariamente do islã, mas apenas atrasada e meio ridícula nos dias de hoje (como é ridículo condenar aborígines, sob desculpas de preservar a cultura deles, a meios de vida da idade da pedra, um marxismo infantil e bobo).O governo francês está creio eu super-agindo, mas por que mesmo lá começaram a aparecer traços de fundamentalismo, ora se vc proíbe manifestações, os fundamentalismos se exauriam (pessoalmente nada contra a burca, se uma mulher aceita que ela só pode sair assim ela merece a burca) ou pelo menos é a lógica dua ação destas. Não concordo, mas entendo. A sociedade ocidental tem muito pouca gana de defender sua tolerância e liberdade e uma excessiva tolerância aos intolerantes. Bem os antropólogos que me desculpem, mas eu acho que uma sociedade, uma cultura que acha amoral discriminações, escravidão ou mortes para diversão é muito melhor que uma que não o faça. Uma sociedade que conceda liberdade a seus cidadãos é melhor que uma que não conceda, mas um cidadão é quem aceita os valores de uma sociedade. Se alguém numa sociedade livre não aceita que todos podem e devem ser livres ele está abrindo mão de sua liberdade. E existe uma diferença entre raça e cultura.A piscina é do governo francês e como lugar do Estado deve livre de qualquer manifestação religiosa. Ela pode ao invés usar um maio de natação e uma toca. As palavras de ordem que levam o governo francês a se lançar militarmente pelo mundo e a que leva a ele a proibir crucifixos e burcas são as mesma (falseadas ou não). E o objetivo do sistema internacional é permitir que os governos façam o que quiserem. Se fosse promover a democracia haveria sanções efetivas (inda que como ultima instância). E a hipocrisia do sistema internacional é achar que um ditadorzinho ou um autocrata qualquer vai mudar suas ações por que ele não pode comprar remédios para sua população, mas ele pode viajar pelo mundo (e num caso bem real) mandar um Concorde para París para compras fúteis...Até.

Adriana Suzart
Adriana Suzart

Leo,Que bom que pelo menos concordamos com a questão da laicização do Estado. Se é verdade que a França é "areligiosa" como você diz, e que isso nasceu com a Revolução Francasa, também foi com esse movimento que nasceu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, base para atual Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nela, foram firmados, pela primeira, vez os direitos fundamentais, que por definição, são inalienáveis. Dentre eles está o direito a livre expressão e escolha de culto. Um Estado que contrarie essa norma está violando o Direito Internacional, e portanto, está sujeito ao julgamento da sociedade internacional, mesmo que isto signifique "apenas" uma advertência verbal.Aliás, a nova lei afegã que diz que o marido tem o direito de deixar a mulher passar fome quando esta lhe negar sexo, é a mais recente intransigência do Estado, que como eu já comentei, tem o dever de proteger seus cidadãos. A mim me parece por demais contraditório e as normas internacionais existem para regular as ações do Estado, da mesma forma que a divisão interna dos três poderes tem a função de controlar os atos do governo.O que parece não ter ficado muito claro e, por isso, retorno ao ponto, é quanto a hipocrisia, também do governo francês, que se diz muito democrático, e que volta e meia, se lança em missões de paz para auxiliar povos oprimidos, fazer isso em seu próprio território e com seus próprios cidadãos. Esse é o cerne da questão.Muitos antropólogos devem se revirar no túmulo ao ouvirem que existem culturas melhores que as outras...Isso porque eles acreditam que, na verdade, há graus de evolução diferentes e, isso não diz respeito à qualificação de melhor ou pior. Seria uma simplificação maniqueista como essa que levou à catástrofe do holocausto na Segunda Guerra. Hitler acreditava que a raça ariana era a melhor do mundo e queria eliminar todas as outras. Tenho a impressão que ele conseguiu atingir o grau máximo da intolerância...No caso do burquine em particular, me parece que o intolerante é o governo francês, que oprime por impedir a moça de nadar na piscina pública com seu traje tradicional. Além do mais, defende uma posição que não é compartilhada pelas mulheres islâmicas. Elas se adaptaram à situação e isso é o que parece incomodar mais... Se o objetivo do sistema internacional é constituir-se de maneira mais democrática e igualitária, como vem afirmando o discurso vigente, é fundamental que tenhamos coerência e sigamos a ética que o próprio sistema acordou. Caso contrário continuaremos a viver na hipocrisia de uma realidade que acima de tudo atende à conveniência dos mais fortes e influentes.Até mais.

Leo.
Leo.

Cara Adriana,a maioria dos Estados Ocidentais são laicos, mas a França, até por uma tradição muito forte não é apenas anti-confessional (afinal todos supõem a existência de alguma divindade)como os outros, mas é militantemente areligiosa. Esta é a tradição francesa, pode mudar sim, mas é o consenso pós-revolução que eles criaram.Bem, isso de impedir a cultura alheia em seu território, ele vai proibir nos limites que ela cause dano a sua própria ou não seja capaz de conviver com outras.(sobre vestuário existem pessoas que podem se sentir inseguras perto de alguem com uma burca, em um avião ou num metrô, quer se queria quer não os islâmicos estão marcados por terrorismo suicida. Este tipo de traje pode tornar o usuário inclusive um bode expiatório)E a tolerância ocidental é amplas, mas ela deve para na intolerância (não se pode ser tolerante com o intolerante, muito pelo contrário).O que dá alguém o direito de impor o que ele acha que é o correto? Ué, ele achar que o correto, em grau absoluto. Se vc acha a democracia o melhor sistema de governo, o mais articulado com os direitos e garantias da pessoa humana, ele tem que ser melhor na Holanda ou na China, no Peru ou no Sudão. Obviamente não há juiz além das próprias culturas (ou da história, pessoalmente acho que sim a cultura ocidental mostrou mais "garra" que a oriental ou a islâmica, conquistou mais poder, por assim dizer). Cada cultura acha, ou deve achar por coerência, que ela é superior, em algum sentido, as outras.Sobre a burca, bem eu volto ao exemplo da escravidão (são apenas níveis diversos de opressão). Vc acha que o direito que a Inglaterra se arvorou de caçar o trafico de escravos por todo mundo era um erro na época? Ou que ele serviu a causa da humanidade (por mais que tenha servido os fins dos capitalistas ingleses)?Subserviência e opressão são sempre subjetivos, obviamente, sempre é alguém que se sente oprimido que diz haver opressão. Agora, quem concorde com ele tem não só o direito, mas o dever moral de o apoiar.E por favor tenha em mente que politicamente eu sou um liberal clássico. Acredito inclusive em um direito natural.Mas, creio que o ocidente está se duvidando demais e desculpando ataques a eles por demais. Basta ver o aumento da intolerância na Holanda, se você não milita na tolerância e oprime opressores ou intolerantes eles florescem e pode ficar certa eles não vão devolver o favor (um caso clássico disso e o do Sudão onde a comunidade internacional foge de seu dever de intervir a anos e anos).

Adriana Suzart
Adriana Suzart

Caro Leo,Todos os Estados ocidentais são laicos. Não me referi somente a França. Por laico entende-se o Estado que elabora suas leis sem intervenção de qualquer instituição religiosa, o que era muito comum no período de transição entre o fim da Idade Média para a Idade Moderna, quando o rei era visto e tido como o enviado de Deus. A Igreja Católica, e posteriormente a Protestante, exerceram forte influência nas políticas da época. Atualmente, essa situação ainda persiste no Oriente Médio, uma vez que os partidos políticos são também facções religiosas, como por exemplo os sunitas e os xiitas.Você tem razão ao dizer que os Estados podem determinar o que quiserem em suas Constituições. E se assim o fazem, renegam todos os acordos internacionais escritos e consuetudinários, da boa convivência e de respeito entre os povos. Sinceramente, não sei até que ponto o Estado pode interferir na cultura alheia, proibindo-a terminantemente em seu território. Permitir isso é aceitar uma nova caça às bruxas, na medida em que cai por terra toda tolerância a que os países ocidentais se arrogam. Falando em Direitos Humanos, penso ser direito da pessoa humana, a liberdade de se expressar, aderir e professar a religião que achar melhor. Se a função primordial do Estado é garantir a segurança e o bem estar de seus cidadãos, me parece extremamente contraditório a proibição do uso de vestuário que faça alusão a tal preferência. Ética e valores são coisas intimamente relacionadas. Não dá para definir uma coisa sem levar em consideração a outra. Você pode até acreditar que a democracia seja o melhor sistema do mundo, mas o que lhe dá o direito de impor o seu valor ao meu valor? Não há um juiz que defina, nem há um consenso que determine que um conjunto de valores ou uma cultura seja melhor que a outra.As mulheres islâmicas estão adaptadas a cultura do uso da burca desde que nasceram. É verdade que, atualmente, existe um movimento de algumas mulheres que tem tomado força contra a imposição do uso dessa vestimenta, mas é um movimento interno, que vem das praticantes dessa cultura, e por isso, nesse caso, legítimo. Mesmo porque, a cultura não é estanque. Ela também evolui. É nesse sentido que o entendimento de opressão e subserviência pode ser entendido como subjetivo. Uma mulher islâmica pode se sentir muito mais oprimida sendo obrigada a usar roupas ocidentais, uma vez que isso vai contra tudo aquilo que ela acredita.Por isso meu caro Leo acredito ainda que as perguntas não sejam meramente retóricas, mas dignas de discussão intensa, uma vez que nossos direitos não são desrespeitados apenas por países que impõem um regime ditatorial político. Existem outros tipos de ditaduras mais sutis, mas nem por isso menos agressivas. E é a essas que temos que ficar atentos.Até a próxima.

Leo.
Leo.

As perguntas foram meio retóricas, mas uns comentários sobre elas (inicialmente a frança não é exatamente um estado laico, ele é um estado bem ateu, na verdade, ateu e um ateu bem empolgado, digamos. e este é a maior causa de conflito interno com os islamicos "de fora", digamos...)1- Basicamente pode tudo, depende das leis, no caso das francesas até por tradição elas são bem draconianas em termos de expressão religiosa. E Estados europeus tendem a ter um visão de Nação e Povo muito forte em suas identidades.2- Considero que na verdade o Estado françês não é neutro com relação a expressões religiosas. Ele tem uma posição: é contra. Se eu não me engano a proibição das burcas caiu tb em crucifixos...3- Direitos humanos se forem subjetivados, bem, o Estado françes pode muito bem fazer oque ele quiser e tb dizer que a questão é subjetiva. Ou alguém pode voltar a defender escravidão, afinal considerar seres humanos iguais é algo que tb pode depender da subjetividade da pessoa, ouque os sexos são iguais, ou que existem raças...4- Se vc considera que os direitos humanos são corretos, se vc acredita que a democracia é o melhor sistema de governo, se vc considera atentatório a dignidade humana o autoritarismo... Bem, é sim algo ético. Se vc acha algo justo, mas não acredita que a justiça vá mais longe que sua casa, bem, vc não acha de verdade que a sua opinião valha algo, ou pior vc está se refugiando num comodismo besta.Mas, uma outra questão é: será que se estivessemos em situações invertidas (ao invés do poder estar no lado do pensamento ocidental, ele estivesse no lado islamico, oriental, digamos): nós poderiamos ter a opção de pensar nisso? pluralismo é muito bom, mas ele exige que quem queria nele entrar aceite pluralismo...

Alcir Candido
Alcir Candido

Pois é, Adriana. A mídia jamais deve ser controlada. Mas é engraçado ver que, muitas vezes, os jornais se queixam de censura, perseguição política e quando têm a oportunidade de noticiar coisas importantes, preferem ocupar os espaços de suas páginas com aquilo que vende mais...