A guerra sem glória

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O tema da moralidade, justiça e de ética para as guerras tem caminhado lado a lado com esses eventos na história. Não é de hoje que se discute isso e parece que a questão quase nunca vai perder sua polêmica e originalidade. Para muitos, como o famoso autor Michael Walzer, o limiar entre o argumento moral e o de interesse é muito tênue. Daí toda a dificuldade de se discutir questões subjetivas como ética e intenções nesses conflitos. 

A guerra do Afeganistão, por exemplo, foi muito discutida em seu aspecto moral. Aproveitou da fragilidade da população no contexto da tragédia do 11/09 para empreender uma missão estratégica em um país de importância geopolítica no Oriente Médio, contra um inimigo sem face, difícil de ser detectado e derrotado. Atualmente esse mesmo discurso parece desaparecer nos anos finais da guerra. Não há glória ao povo estadunidense, os soldados questionam a resiliência do Taliban e da Al Qaeda (clique aqui para um artigo sobre isso) e nem mesmo a população parece acreditar mais na causa. Aquela obrigação moral parecia se sustentar apenas em um contexto específico. 

Após 11 anos, o discurso desmorona e das palavras faz-se o silêncio. A disseminação do ódio contra os Estados Unidos nos países muçulmanos coloca-se como algo que reforça a perda de popularidade da guerra. Parece que, cada vez mais, aumenta o número de pessoas, tanto entre a população civil, quanto entre os militares que não entende mais essa guerra como necessária. A OTAN já havia refeito sua estratégia para suspender sua atuação no país e, agora, Obama retirou os 33 mil contingentes adicionais que enviou em 2010. Imaginava-se que, como foi na morte de Bin Laden, essa redução de soldados na região iria poder ser transformada em capital político para o “Obaminha paz e amor”. Bom, não foi dessa vez. Nem o presidente, nem o general responsável pelas tropas no país e nem mesmo o presidente afegão, Hamid Karzai, fizeram o anúncio. O comunicado emitido pelo secretário de Defesa, Leon Panetta, enquanto viaja à Nova Zelândia. Não que ele não seja uma autoridade importante, mas substituiu-se a possibilidade de se obter um capital político interessante, por um anúncio burocrático em low profile. 

Isso demonstra duas coisas. A primeira, como já dissemos, que o argumento moral dessa guerra já está dissolvido e o que resta é uma espécie de novo Vietnã. Com a diferença de que não há tantas mortes de americanos e nem vitória do outro lado; apenas sua não-derrota, que, para os grupos terroristas, já significa um duro golpe político ao Tio Sam. A segunda é que, não sem razão, o governo Obama e a OTAN estão morrendo de medo das reações dos países com grandes concentrações de muçulmanos. E essa onda de violência também escancara o estado frágil que essa guerra se encontra hoje, pois os ganhos de manter as tropas por lá, com a intensificação dos protestos antiamericanos no Afeganistão (e mundo afora) e de atentados contra militares na região, não parece exceder os custos. 

O argumento que sustenta essa guerra já se foi. O que resta é a luta de soldados que não compreendem a tamanha resiliência do inimigo e de governantes que não parecem querer comentar muito sobre o que tem se passado por lá. Em uma guerra sem glória, aceitar a derrota seria aceitar a limitação da política externa americana na região, algo que, certamente Obama não gostaria de fazer. Assim a guerra arrasta-se.



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