A força de paz do Alemão

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Para que servem, afinal, as Forças Armadas?

Pergunta simples, resposta complexa. De modo geral, podemos dizer que servem para proteger o Estado contra ameaças e assegurar, assim, a vida dos seus cidadãos. Mas aí é que está o problema. No conceito clássico, as Forças Armadas servem para proteção contra fatores externos, uma vez que, no próprio território do Estado, ele mesmo tem o tal “monopólio do uso legítimo da força”. 

O que vemos hoje no Rio, então, é um desafio ao Estado Moderno. Uma força ilegítima exercendo o controle de parte do território do país, no caso, os traficantes e as milícias em favelas da ‘Cidade Maravilhosa’. 

O próprio simbolismo de se erguer a bandeira do Brasil dentro do próprio território nacional como símbolo de ‘conquista’ é algo estranho de se pensar. É como se parte do país não estivesse sob a tutela do Estado. 

Mas o mais paradoxal, contudo, é a participação das Forças Armadas nessa empreitada. Como pensar, no modelo clássico, o Exército combatendo, prendendo e matando seus próprios nacionais? Não serviria a Defesa Nacional para proteção contra as ameaças externas? E o trabalho dos soldados reconstruindo ruas? Eles não deveriam estar sendo treinados para proteção das nossas fronteiras? As polícias é que não deveriam estar encarregadas do exercício do monopólio da força do Estado?

E a tal ‘força de paz nos moldes do Haiti‘? Como as Forças Armadas de um país podem estar envolvidas em ‘missões de paz’ dentro do próprio território nacional e combatendo os próprios cidadãos?

Pensar essas questões no modelo clássico do Estado realmente não faz sentido. É um paradoxo. Mas o problema é que os Estados vêm se comportando ultimamente de modo que a teoria clássica não previa. E não há consenso sobre uma ‘nova’ teoria que explique essas ‘novas ameaças’.

Este conceito de Estado e Forças Armadas são do século XVIII e o mundo mudou bastante de lá pra cá. As ameaças de antes, como guerras por territórios, já não são a maior preocupação dos estadistas de hoje. É como se estivéssemos usando um óculos cujas lentes já não nos ajudam a enxergar.

Vejamos o próprio terrorismo internacional a desafiar diariamente nossos conceitos e dogmas (Tratamos deste assunto no blog outra vez, veja aqui).

Para que servem, então, as Forças Armadas? Boa pergunta, mas talvez reformar estradas esteja longe de ser uma atribuição dos nossos soldados.


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