A flor da mocidade

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Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,

E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza

Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Eis um trecho do poema “À sua mulher antes de casar”, de Gregório de Matos, considerado o maior poeta barroco do Brasil. Não é por acaso que se escolhe o poema e o estilo artístico barroco para este post, cujo objetivo é tratar dos protestos que se disseminam pelo globo e ganham cada vez mais força. Em todos os cantos, há cidadãos lutando contra o trote do tempo, que imprime sua pisada nos sonhos desabrochados da modicidade, sem deixá-los florescer nos jardins de esperança do futuro.

No século XVII, o estilo barroco surgiu de duas crises: a dos ideias e valores renascentistas, oriunda das lutas religiosas e marcada pela Contra Reforma, e a econômica, decorrente da decadência do comércio com o Oriente. Quando se pára para pensar cuidadosamente, observa-se que também há uma crise de ideias e valores, além da econômica, por trás de todos os protestos que sacodem o mundo. Ambas as crises apresentam características intrínsecas ao pensamento barroco, caracterizado pelo culto ao dualismo, pessimismo diante da vida e literatura moralista (em termos contemporâneos, seriam ‘protestos moralistas e educadores’). Autoritarismo x liberdade, capitalismo x (?), bancos x pessoas, são dilemas que se impõe, expectativas que se frustram e gritos que ecoam nas ruas.

O barroco voltou?

Da Primavera Árabe ao Outono Americano (ou “Ocupem Wall Street”), as pessoas contestam o exercício da tirania, muitas vezes imperceptível, da minoria. Ditadores, governantes, banqueiros, corporações, ou seja lá o que for, por toda parte, alguém é culpado por abusar do poder (político, econômico, cultural, etc.) e condenar milhões a uma vida indigna e sofrível. As ideias e os valores historicamente construídos por essa tirana são colocados em xeque, mesmo sem saber que ideias e valores se possam reinventar. Críticas são feitas aos regimes políticos árabes, outras atingem o sistema capitalista ocidental. O consumo não se traduz mais em felicidade e bem-estar, nem a religião traz alívio. As motivações comuns entre os protestos são o desemprego, a falta de moradia, o dinheiro, a fome, entre outras questões que agravam as condições sociais.

O mundo está se transformando em uma grande ágora contemporânea. Da praça Zuccotti, nos EUA, à praça de Tel Aviv, as pessoas acampam e protestam. Elas dormem e acordam em frente ao Banco Central Europeu, em Frankfurt, pedem a reforma do sistema educacional no Chile, enfim, as pessoas querem voz, demonstram sua insatisfação e querem participar diretamente dos governos, excedendo os meros caprichos eleitorais, manifestados pelo voto. Mas elas assustam. Na Inglaterra, foram tachadas como vândalas, desocupadas, para serem reprimidas, assim como são reprimidas nos países árabes. Volta à tona o príncipe maquiavélico, da época barroca, em que é melhor ser temido do que ser amado. Putin já deu o recado na Rússia.

Até quando esta flor da mocidade adornará os campos de penúria que se espraiam? O que esta pintura barroca do mundo sugere? A despeito da participação popular nos rumos de seus respectivos países, o grande desafio é proposicional. Por enquanto, os protestos são marcados pelo que elas se opõem, e não pelo que propõem, alertando os governos sobre suas práticas excludentes. Goza, goza da flor da mocidade, antes de ser acometida pelos passos abrasivos do tempo.

[Artigos interessantes sobre a temática tratada: 1, 2, 3, 4, 5, 6]


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Economia, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


1 comments
Anonymous
Anonymous

Eu precisava de uma explicação concreta para o meu trabalho, mas eu acho que o site poderia ter mais informações sobre os poemas de Gregório de Matos. Obrigado pelo espaço!!!!!!!!!!!!!