A fênix cubana

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Certamente, todos conhecem o mote da fênix, a ave que entra em auto-combustão ao morrer e renasce das próprias cinzas. Cuba ensaia fortuna idêntica. Não seria preciso Fidel Castro dizer e, ao mesmo tempo, desdizer que o modelo econômico cubano não funciona mais. Declaração também incompleta, ressalta-se, carecendo da adição da falha do modelo político e seus desdobramentos nas questões sociais e humanitárias. Em que pese ainda outro aspecto: a guinada discursiva de Fidel para a política internacional, sob um caráter praticamente militante.

No que concerne ao modelo cubano, tanto econômico quanto político, sabe-se que a história reservou apenas experiências fracassadas ao socialismo, desde a Comuna de Paris, em 1871. Todos vitimados pelas entranhas do poder, que distanciaram do povo aquilo que era seu por direito e destino; no caso de Cuba, isso acarretou mazelas pendulares entre as liberdades reprimidas e os confortos epidérmicos. De um lado, as violações sistemáticas dos direitos humanos, de outro, um impecável sistema de saúde e moradia. Dessa combinação, assegura-se a vida, não o viver.

É fato que se deve prestar o devido reconhecimento a uma peculiaridade muito grande da Revolução Cubana: a repercussão em âmbito continental – quiçá global –, confeccionando escolhas que afrontaram os Estados Unidos e os deixaram reticentes na adoção de políticas para a América Latina. Levou inclusive o gigante do norte ao imbróglio entre a disseminação da democracia ou de ditaduras que lhes comprazia. Cuba foi um marco, mas está perdendo as suas marcas na medida em que tem que buscar seu lugar no mundo e alimentar o seu povo com mudanças para além das ideologias revolucionárias. Não se deve jamais esquecer o passado, mas não se pode permanecer refém dele e Fidel Castro está ciente disso.

Já estão previstos um corte de meio milhão nos empregos públicos e um alívio ao setor privado (aqui). Desde o colapso soviético e o embargo norte-americano, Cuba não consegue andar sozinha. Cuba precisa do mundo. Não parece que as palavras do líder cubano voltadas para grandes temas mundiais em pauta foi fruto do acaso – guerra nuclear, anti-semitismo iraniano, perseguição a homossexuais, etc. Tudo bem que pode ser uma forma de escamotear os desafios internos, fortalecidos na luta silenciosa e auto-flagelada de seus dissidentes, mas não há espaço para ingenuidade na política internacional. Neste quase um século de vida, Fidel deve ter aprendido isso muito bem.

Enquanto a vida lhe percorrer o corpo e depois de ter lançado uma auto-biografia, Fidel deve olhar para o passado e o futuro simultaneamente. O modelo cubano envelheceu com a sua aura revolucionária e ideológica e o país precisa se inserir no mundo pós-1959. Não deve fazê-lo por pressões alheias, de maneira subserviente, ou por intermédio de outros países, senão a partir dos ensinamentos de sua história, privilegiando mais a autonomia do que o confrontacionismo. É hora desta fênix renascer!


Categorias: Américas


3 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Obrigado Mário!Uma pena não ver "Coisas Internacionais" entre os finalistas também...Abraços,

alcircandido
alcircandido

Valeu, Mário!Tivemos só alguns dias de votação, mas foi bom,muito obrigado!

Mário Machado
Mário Machado

Não é o canal para isso, mas parabéns pela classificação no Blogbooks.Abs,