A dupla imbatível

Por

Congestionamentos em feriados prolongados tornaram-se habituais no Brasil

Fonte da imagem: Renato Cerqueira/Futura Press


Já é de praxe aqui no Brasil. Se tem feriado, ainda mais feriado prolongado, os congestionamentos no trânsito das grandes cidades e no litoral aparecem como “bônus”. Ontem não foi diferente e hoje, dia da Proclamação da República, a dupla imbatível voltou a aparecer. Na cidade de São Paulo registrou-se o maior congestionamento da história com aproximadamente 310 km de filas, o que equivale a quase 36% de todas as vias municipais monitoradas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). 

São Paulo é um caso clássico. Mas congestionamentos em feriados também ocorrem com frequência no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e várias outras capitais. E no litoral nem se fala, sentido Santos e Ubatuba sempre é um caos. Mas, afinal, quais seriam as explicações para esses acontecimentos? Gestores públicos sempre argumentam que não existe possibilidade de acabar com o intenso tráfego durante feriados por uma questão simples: é muita gente para pouco espaço. 

E isso acaba sendo a realidade de grandes cidades brasileiras e ao redor do mundo. É a ótica da aglomeração. Não é algo anormal, diga-se de passagem, só que cada vez mais muda-se a paisagem das cidades e emergem aqueles arranha-céus gigantescos. Novamente, de “bônus” vem acompanhada a famosa bolha imobiliária brasileira já afirmada por muitos, inclusive pelo ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Por experiência própria, vi isso em Brasília de forma cabal. Não consigo entender porque um aluguel de uma kitnet de 25 m² varia em torno de 800 reais por mês (sem contar condomínio) e porque o valor do m² no Plano Piloto às vezes ultrapassa 12 mil reais. Enfim, volto à pergunta feita anteriormente. 

Congestionamentos em feriados continuarão existindo, mas refletem a ótica de um problema há muito conhecida aqui no Brasil: questão de mobilidade urbana. Nosso país é comandado por transporte terrestre, ruas, avenidas e rodovias. E, mesmo assim, basta sair do estado de São Paulo para ver o quão precárias algumas dessas se encontram. É o reflexo de um mau planejamento absurdo e total descaso por parte de autoridades públicas responsáveis para tanto. 

Vejamos alguns números. Nos estados do Sul, São Paulo e Distrito Federal há uma média de três habitantes para cada carro. Em São Caetano do Sul, existe um carro para cada 1,6 habitante. São Paulo precisaria mais do que duplicar a área de ruas para que todos os veículos circulassem ao mesmo tempo!! De 2001 até 2012 o número de carros no Brasil cresceu 104,6% para 50,2 milhões de unidades, algo muito superior ao próprio crescimento da população, de acordo com dados da Revista Carta Capital (n. 774). Tudo isso acompanhado por propagandas de concessionárias que vendem a ideia de “sucesso = carro”, mais um incentivo aqui e ali do governo para baixar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O resultado é isso: falta de estrutura para um consumo por vezes desnecessário. Quando a bomba explode? Nos feriados! Dupla imbatível! 

Há ainda números sobre outros tipos de mobilidade urbana que assustam. Tóquio, Nova Iorque, Pequim e Londres possuem linhas de metrô que ultrapassam a marca dos 300 km. No Rio são 44 km acompanhados por 74 km na capital paulista. Os ônibus são uma alternativa precária e, na grande maioria, utilizados somente por aqueles que os veem como recurso necessário e não por livre escolha. Quem usa metrô e ônibus é a massa trabalhadora. Ninguém gosta de entrar em lata de sardinha. Daí entra a questão do carro: vejo a propaganda e penso: “Vou comprar meu carro, abaixar o vidro e ligar o ar-condicionado”. E o mundo lá fora respira… 

Poderia citar, também, as ciclovias e bicicletas. Prefeituras tentam implementar inúmeros projetos para torná-las viáveis, mas é difícil sair do papel para adentrar o cotidiano das pessoas. Infelizmente, estamos acostumados com a realidade dos motores. 

Por fim, recapitulando a pergunta, não podemos apenas afirmar que a máxima “muita gente para pouco espaço” é a resposta única para o grande número de congestionamentos em feriados prolongados brasileiros. O que existe é um processo duplo: primeiro, negligência governamental e, segundo, negligência da população. Falta recurso e falta infraestrutura pública. Todavia, não podemos deixar de lado o fato de existir essa consciência “sucesso = carro”. Faltam faixas de ônibus, linhas de metrô, ciclovias e ciclofaixas… E faltam caronas, integração. O pior de tudo é que demandará tempo para uma mudança da nossa mentalidade.


Categorias: Brasil


1 comments
Gabriel Trovo
Gabriel Trovo

Acho, inclusive, que o problema é ainda mais subjetivo. Na questão colocada, em que um carro significa sucesso, enxergo não somente o desejo de contentar o próprio ego na certeza de que com o carro as pessoas se sentem mais realizadas, mas como um símbolo da sociedade de consumo, individualista que procura exibir ao outro o seu "sucesso" e se afastar do estereótipo da massa trabalhadora que se espreme nos coletivos. Ou seja, o que importa sou eu, e o meu sucesso. É por essas e outras que vemos com facilidade o discurso comum da classe média paulistana, que se indignou com o aumento das faixas exclusivas para ônibus na capital, vendo isso como cerceamento da sua liberdade de locomoção.