A droga do poder absoluto

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Há muito a Rússia tem tentado desvincular-se da imagem de autoritarismo que tem sido intrínseca à sua história. Entretanto, as tentativas não têm atingido lá resultados muito satisfatórios. Do czarismo ao socialismo real, o país demonstra afinidades com líderes absolutos e não necessariamente carismáticos. No país, o poder atinge status de uma droga que após certa freqüência de uso torna difícil o rompimento. Por isso, mesmo após a derrocada da União Soviética a Federação Russa vive às sombras de líderes soviéticos poderosos com capacidades de intervenção em todos os setores da sociedade.

O tempo que se oculta ou se nega a dependência de certa substância química parece inversamente proporcional ao tempo de recuperação, e aos poucos a dependência se nidifica e transparece aos outros. Da mesma forma tem se dado a essa droga do poder absoluto na Rússia, atualmente, sob os auspícios de Vladimir Putin. O líder tem sido acusado de influência direta na extensão da condenação do magnata, líder petroleiro – e financiador do partido de oposição na re-eleição de Putin –, Mikhail Kodorkovsky, preso desde 2005, e tem rendido questionamentos intensos na mídia nacional e internacional sobre o verdadeiro caráter do julgamento.

Teria havido o primado do político sobre o jurídico (também chamado de politização do judiciário por de cientistas políticos brasileiros em análises de nossa realidade)? Apesar de ser necessária certa cautela na análise de eventos recentes, podem haver menores dúvidas quanto aos excessos da droga do poder por Putin. Desde que assumiu seu primeiro posto na KGB, em 1975, passou a crescer em influência e em poder no país até chegar à presidência pela renúncia de Boris Iéltsin. Mesmo após o término de seus dois mandatos (2000-2008), manteve-se próximo ao poder, e em 2008 foi nomeado primeiro-ministro.

Eventos diversos marcam a ampliação da influência de Putin e sua capacidade de manter amigos próximos e inimigos nem tanto. Primeiramente, merece ser citado foi a nova legislação para as eleições de governantes regionais e prefeitos de Moscou e São Petesburgo que, desde 2004, passaram a ser nomeados pelo Kremelin. O segundo seria o desentendimento entre o atual presidente, Dmitri Medvedev, e o prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, em outubro desse ano. O resultado foi a desoneração do prefeito. Para muitos era um distanciamento entre Putin e Medvedev – já que Luzhkov era aliado de Putin. Todavia, sua substituição por Sergei Sobianin fortaleceu ainda mais Putin e seu partido, o Rússia Unida. O terceiro, em 2005, foi a prisão de Kodorkovsky que de aliado de Putin passou a ser financiador da oposição.Desde então tem surgido inúmeras acusações de lavagem de dinheiro, inadimplência e fraude contra ele. Eventos ligados demais para serem considerados mera coincidência. Essa droga do poder absoluto ou ânsia por autoritarismo (como disse Mikhail Gorbatchev em entrevista ao Estado de S. Paulo em 27/10/2010) parece gerar forte dependência nos líderes russos.

Se Putin encabeçou os exemplos supracitados, não se tem certeza, mas sua participação neles é bem evidente. Então a resposta à pergunta do início do post parece mais positiva do que negativa. Apesar de tentativas de ocultar, há momentos nos quais transparecem os problemas de um dependente químico. E a Rússia de Putin não está muito longe disso.

[Para um interessante artigo sobre algumas condições do sistema carcerário russo, clique aqui]


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