A dama que era rainha

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Hoje o mundo lamenta (apesar de ter quem comemore) a passagem da primeira mulher (e até agora única) a ocupar o cargo de primeira-ministra da Grã-Bretanha, Margaret Thatcher, que faleceu aos 87 anos de derrame hoje pela manhã. Quando grandes personagens morrem, a repercussão é sempre sobre sua importância e legado. Thatcher estava afastada há mais de 10 anos da vida pública por motivo de saúde, então realmente não tinha aquela importância na atualidade… mas não é à toa que ela geralmente é referida como uma das pessoas que acabou com a Guerra Fria, com gente da estirpe de Reagan, o papa João Paulo II e Gorbachev (inadvertidamente, mas enfim), o que não é pouca coisa, e sua história é muito rica. 

No governo de 1979 a 1990, por três mandatos, a conservadora Thatcher fez de tudo. Conseguiu que um apelido pejorativo da imprensa soviética fosse adotado pelo resto do mundo, e ganhamos assim a “Dama de Ferro”, antes apenas o nome de um instrumento de tortura. Contribuiu para a queda da URSS ao “aprovar” Gorbachev como interlocutor aceitável com o “demônio” que considerava o governo soviético. Escapou de um atentado intacta e com isso apertou a repressão ao terrorismo político do IRA. Conseguiu reverter uma onda de aprovação negativa e retomar o nacionalismo britânico de um jeito que não se via desde os tempo do Churchill (e com um pouco de ajuda da atrapalhada ditadura argentina) ao vencer a palhaçada da guerra das Malvinas. Jogou a pá de cal no domínio britânico de Hong Kong ao assinar o acordo que confirmava a devolução da ilha para a China em 1997. Isso pra ficar em seu legado na história mundial. 

Afinal, sua principal herança foi no âmbito interno. Thatcher era amada e odiada (quando terminou o mandato, em 1990, estava brigada até com o próprio partido) na mesma proporção, ao salvar a economia britânica, controlando a inflação e valorizando a moeda, ao mesmo tempo em que arruinava setores ineficientes, se bicava com sindicatos e nadava em privatizações. Talvez sua maior sacada tenha sido com relação à União Europeia. Ela era totalmente contra a adesão britânica, e parte da rejeição do país ao Euro com certeza veio da lembrança da grande ministra. Quando vemos a situação do bloco hoje, não é de espantar que uma política durona e perspicaz pudesse estar certa desse modo. Claro que ela não acertou sempre – era contra a reunificação da Alemanha, que hoje vai bem obrigado. 

De todo modo, hoje se encerra um capítulo de um dos períodos mais agitados da história. Os feitos e a herança política de dela, seja na austeridade que legou ao governo de seu país, seja na figura de mulheres de personalidade forte e questionadoras no poder, são duradouros e vão afetar a história por muito tempo, dessa dama que parecia muito mais com uma rainha de jogo de xadrez.


Categorias: Economia, Europa, Política e Política Externa


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