A culpa é das estrelas (do PT)

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Fonte: Twitter

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O título deste texto faz apenas uma analogia ao título do livro do escritor John Green, o qual, inclusive, virou filme e está passando nos cinemas. A história, pelo que li e me parece, é linda e triste, pois narra a história de dois adolescentes que se conhecem em meio à conturbada presença de um câncer. Entretanto, termina aqui minha explicação, posto que meu comentário no blog se reserva a outras dimensões: a política brasileira, a disputa presidencial e o bom e velho futebol tupiniquim.

Mesmo ainda no início da segunda fase e sem saber se o Brasil realmente será o campeão dentro de campo, a Copa do Mundo trouxe um ponto muito positivo ao país, seja ele a volta de um debate político cotidiano e mais acalorado. Quando falamos em Política Externa, a grande maioria de interessados na área sabe que o brasileiro não a vê com a atenção necessária e, por vezes, o tema passa batido nos discursos políticos. Ao contrário, a Política Interna sempre foi mais presente nos palanques e o âmbito nacional aparece, novamente aos olhos dos brasileiros, como o nível de análise mais importante e aclamado.

Exemplo claro dessa afirmação anterior está em como normalmente se dão os (des)créditos dos sucessos e fracassos da política brasileira ao âmbito federal, visto que nosso país é uma Federação Trina regida pela Constituição de 1988, na qual os entes federativos dividem-se em municípios, estados e União. Se na teoria é assim e na prática deveria ser, no discurso batido geral do brasileiro (não colocarei a expressão “brasileiro médio”, porque nem sei direito o que isso significa) nos últimos meses ecoa apenas uma frase: “A culpa é do PT (Partido dos Trabalhadores)”, fazendo uma clara evidência à presidente Dilma Rousseff.

As vaias em si e não seus tons pejorativos conforme fora visto no “Ei, Dilma, vai tomate cru” são válidas? Sim, são. Mas se fosse pra xingar, não faltariam políticos para tamanho coro. De fato, as críticas ao PT devem ser feitas, só que com conhecimento de causa. O atual governo federal errou e falhou em inúmeros aspectos, deixando totalmente de lado o legado do partido, embora isso já fosse visto na presidência de Luiz Inácio Lula da Silva. Todavia, conforme mencionei logo acima, devemos ter em mente que a Federação é trina e também existem responsáveis diretos pelos erros e falhas estatais e municipais.

E isso vai muito além do PT. Vejamos, novamente por exemplo, o caso da greve no metrô da cidade de São Paulo. Muitos colocaram a culpa nos próprios metroviários e na famigerada Dilma pelo “caos” urbano na capital. Mas muitos se esquecem de que a responsabilidade direta pelo metrô é do governo estadual do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ferrenho adversário do PT, propriamente dito. Do mesmo modo, citam e citam que a corrupção “à lá” PT é a responsável pelo atraso brasileiro. Mas esquecem e esquecem do esquema milionário de fraudes em propinodutos do PSDB…

Não podemos confundir conjuntura com estrutura, sendo que os problemas vistos atualmente no Brasil (corrupção, precariedade educacional, insegurança pública, etc.) são problemas estruturais. Poderíamos voltar à formação econômica e política nacional para explicar tais fatos. Por ora, até para não ficar cansativo, friso que as vaias que colocaram a culpa nas estrelas (do PT) são válidas. Entretanto, partiram de um setor específico da sociedade, quem era “very important person” (VIP) ou estava disposto a desembolsar uma quantia muito maior do que qualquer Bolsa Família para comprar um ingresso para a abertura da Copa. E, na maioria dos casos, esse setor social é míope às transformações sociais ocorridas em nosso país nos últimos anos.

Por fim, resumo duas ideias. Primeiro, com a Copa do Mundo ficou nítido o quão o “brasileiro geral” preocupa-se em demasia com a esfera federal e desconhece as realidades estaduais e locais. Ele vive o Brasil das bandeiras em capôs de carro e canta o hino na sala de casa antes da narração do Galvão Bueno, mas não sabe distinguir minimamente se o problema da sua calçada advém do presidente, do governador ou do prefeito. Segundo, voltando ao livro de John Green, devemos parar com essa síndrome anti PT e ver que o verdadeiro câncer na política interna nacional é o bipartidarismo velado entre o próprio PT e o PSDB. Desacreditar no primeiro e apoiar o adversário me parece pertinente. Contudo, acreditar que o segundo de Aécio Neves vai transformar o cenário atual é pura ilusão e demagogia.


Categorias: Brasil, Polêmica, Política e Política Externa


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