A crise realmente acabou?

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Quem não se lembra da crise econômica que se iniciou no final de 2007? O seu marco inicial foi a quebra do banco de investimento Lehman Brothers, que representou somente a primeira etapa da denominada “crise dos subprimes”. Logo outras instituições financeiras entraram em colapso, a desconfiança nos mercados internacionais se expandiu e as maiores economias do mundo entraram em recessão.

Para mitigar os efeitos negativos da crise financeira, diversos países adotaram pacotes de estímulo, diminuíram suas taxas básicas de juros aos níveis mais baixos da história, socorreram bancos, entre outras medidas. A ação rápida através de medidas sem precedentes dos diversos governos mundiais tiveram um papel fundamental na estabilização dos mercados financeiros e para a recuperação econômica. De certa maneira, a crise foi estancada.

Anualmente a Organização das Nações Unidas (ONU) prepara um relatório com previsões para a economia mundial. O relatório deste ano apresenta as tendências e propõe medidas com o intuito de fortalecer a recuperação econômica. Em primeiro lugar, aponta para a austeridade em lugar de amplos pacotes de estímulo, política que arrefecerá o crescimento das economias mundiais. Além disso, destaca mercados cambiais voláteis, migração de investimentos de curto-prazo rumo a países em desenvolvimento e um desemprego persistentemente alto.

Os países que ditaram e comandaram a recuperação mundial foram os chamados “em desenvolvimento”, uma vez que os países centrais se viram mais expostos aos riscos de um mercado financeiro irresponsável. Tal constatação gerou efeitos na dinâmica política da comunidade internacional, seja pelo questionamento das tradicionais potências ou por meio da ampliação dos grupos de discussão. Antes os principais temas eram tratados no G-8, o pós-crise viu um G-20 vitaminado e reconhecido como o principal fórum de negociação e cooperação internacional.

Passado o pior da crise, alguns países viram uma forte deterioração de sua segurança social e econômica, sendo o caso mais recente Portugal. A encruzilhada que muitos governos enfrentam é escolher entre a austeridade e a manutenção de estímulos para a recuperação. O primeiro representaria o reequilíbrio econômico, ao passo que o segundo foca na continuidade do combate ao desemprego e a recessão. Encontrar um meio-termo é essencial, errar a medida para um lado ou para o outro pode representar riscos à recuperação. Contudo, os países em profunda crise (Portugal, Grécia e Irlanda, por exemplo) possivelmente não terão escolha, à medida que serão forçados por seus credores a escolher austeridade frente a qualquer outra prioridade.

Por fim, as Nações Unidas defende uma maior sinergia na cooperação internacional. Os estímulos fiscais/monetários deveriam enfocar um modelo mais sustentável de desenvolvimento, a proteção social e a geração de novos empregos. No mesmo sentido, a coordenação deveria envolver a regulação do setor financeiro mundial, a facilitação dos fluxos de capital pelos países em desenvolvimento e a reforma do sistema de reservas e pagamentos. A falta de cooperação poderia desencadear uma nova recessão. Não se pode perder de vista também os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que sofreram perdas e se viram ainda mais desafiadores para diversos países. A questão-chave é justamente a adoção de políticas nacionais integradas a um plano internacional abrangente. No final das contas, talvez a crise ainda não tenha acabado.


Categorias: Economia, Política e Política Externa


2 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Bom dia Hermes!Me lembro também quando a crise era recente. Nos EUA vi várias lojas com placas "going out of business", vendendo tudo que restava para fechar. Te ofereciam para levar até cabide.Abs,

H.R.
H.R.

E não acabou mesmo, Álvarez.São os PIG´s puxando o resto da UE pro buraco. Espanha falida no setor terciário com milhares de jornalistas desempregados. Até nos EUA os empregos que ninguém queria, por ser do baixo escalão, já rarearam e não têm mais plaquinhas pelas lanchonetes "We´re Hiring". Prova disso, inclusive, se vê por aí, nos grandes fast foods franquiados, com seus empreendedores gringos. que arriscam a praça brasileira. Só está faltando o pessoal da Bolívia vir pra cá, trabalhar nos shoppings das maiores cidades - um mero detalhe.