A contradição

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Se há um ponto delicado e ainda pouco explorado na literatura de Relações Internacionais, este é a questão das migrações. Na História do Brasil, os fluxos migratórios foram vistos como fator essencial na definição do sentimento de nação – com vias no entendimento da “brasilidade” como derivada da grande miscigenação. Outro exemplo emblemático de uma visão positiva frente às migrações foi o caso do Canadá que, desde sua independência, possui políticas de incentivo à imigração dada sua baixa densidade demográfica e seu território de proporções continentais.

De maneira oposta, existe também a visão negativa das migrações que pode até chegar a atingir certo nível de xenofobia. Os exemplos mais tradicionais são os de países europeus como o Reino Unido, a França e a Espanha.

Os Estados Unidos também tem certo histórico de se opor às migrações, principalmente às chamadas de migrações hispânicas. No geral, o olhar negativo incide sobre os imigrantes ilegais provenientes do México. Há também no país um misto de intolerância, falta de conhecimento e preconceito que perfaz o imaginário de parte da população sobre a presença dos imigrantes de origem latina.

No campo acadêmico, Samuel Hutington defendeu posição semelhante, afirmando que o grande volume de imigrantes mexicanos, e latinos em geral, eram ameaça à integridade cultural estadunidense já que o governo precisava considerar cada vez mais essa parcela significativa da população. Assim, para o autor, aos poucos essa relação vai erodindo o “american way of life” e deve-se dar espaço para a cultura e língua desses migrantes. Portanto, se mostravam necessárias políticas que limitassem a imigração tanto de forma ilegal quanto legal.

Atualmente, o estado do Arizona é o epicentro de fortes protestos da população frente a políticas de controle de imigrantes ilegais. Em nível macro, a busca pelo controle da imigração nos EUA sofre dois movimentos contraditórios, porém, de modo muito interessante, complementares. O primeiro tem bases na posição da ala republicana, que ainda insiste na necessidade de se fortalecer militarmente as fronteiras contra a imigração ilegal – como se a questão migratória fosse uma ameaça militar comum. Neste sentido, o governo Obama acatou com o posicionamento de aumentar o contingente militar na fronteira com o México, aproximando-se da política de segurança do governo Bush.

Todavia, é justamente nesse ponto que reside a contradição e que emerge o segundo movimento. Para angariar apoio à reforma na política de migrações do país a ala governista deve considerar as relações de força no congresso. E grande parte do peso das decisões depende do apoio republicano. De um lado, há a busca pela alteração da política migratória; de outro há uma nova estratégia dos Estados Unidos na fronteira com o México. Ambas coexistem.

A contradição, contudo, pode minar um pouco a relação EUA-México. E, convenhamos, não se controla migrações ilegais com base na militarização unilateral das fronteiras. A forma mais adequada de realizar tal movimento é pela via cooperativa com os Estados fronteiriços, no caso o México. Felipe Calderón – que hoje lida com um Estado com cada vez menos êxito para exercer o monopólio legítimo da violência – já percebeu essa ligação e insiste que as forças sejam usadas apenas para o combate ao narcotráfico. A política é cheia de contradições. Agora, resta esperar para ver o resultado de mais essa. . .


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