A continuidade

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O tempo humano é curioso. Períodos que nos parecem longos representam na verdade um piscar de olhos para o planeta. É tudo uma questão de percepção. Deve ser por isso que mesmo com o desenrolar dos fatos, nas relações internacionais, pareça que nada muda. São raras as inflexões e cujos fatos tendem a depender de processos longos – e exemplos disso não faltam essa semana. Parece que nada muda.

Muitos devem estar fartos da cobertura do resgate dos mineiros chilenos, que apesar de trazer grande alívio aos que se compadeciam do drama das vitimas, veio acompanhada de um tsunami midiático (tecnicamente, estamos fazendo parte disso ao comentar mais uma vez sobre o assunto… ah, a ironia). Entre mensagens de esperança e humanidade, fica a crítica implícita às más condições de trabalho dos mineiros – no mesmo dia do resgate, um mineiro chileno morreu em acidente noutro local. Ora, esse tipo de sinistro não é exclusividade do Chile; na China, por exemplo, já há um novo caso de desabamento causado por uma explosão de gás metano – só que sem expectativa de resgate para os desaparecidos e com mais de 30 mortes confirmadas. Pois é, nem tudo são flores nesse ramo, ainda mais em um país em que só no ano de 2009 morreram quase 3000 pessoas em acidentes de mineração (segundo os números “oficiais”; quantos mais não devem ter morrido na obscuridade…). Esse quadro de degradação das condições de trabalho, extremo no caso dos mineiros, mas que é comum a muitas ocupações, não parece que vai mudar em curto prazo, mesmo com a comoção causada pelo resgate.

Poderíamos citar outros exemplos, como a China dar indícios de já estar orquestrando a sucessão de Hu Jintao (a exemplo de sua vizinha, a Coreia do Norte, com o roliço filho de Kim Jong-Il), ou o fato de Israel praticamente defenestrar os esforços de negociações pela paz com os Palestinos ao prosseguir com a política de assentamentos e construção de casas. Cada um ao seu modo, são exemplos de como pode ser difícil, nas relações humanas, promover alterações em determinados comportamentos, que não exijam um processo lento e por vezes imperceptível de adequação. E, por mais que o tempo passe, pode ser que não vejamos a conclusão de muitos desses processos.


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Mídia


1 comments
Ivan
Ivan

Excelente tema!E são claras as inteções, seja por estadistas, jornalistas, historiadores, quando escolhem os marcos históricos, mesmo quando ocorreram ontem!!Do que adianta lembrar de um dia no plano internacional para sempre, se nada muda a partir dele? e isso é tão culpa "deles" quanto de nós, meros civis...