A colcha de retalhos dos BRICS

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Basta uma nova reunião dos BRICS se iniciar para que comecemos a pensar sobre o que de fato o bloco representa. Primeiro, há de se dizer que BRICS é um conceito antes de se tornar um bloco. Em 2001, o economista Jim O’Neal, da Goldman Sachs, utilizou o termo pela primeira vez em seu trabalho “Building a Better Global Economic BRICs”. O conceito referia-se a uma projeção de que Brasil, Rússia, Índia e China poderiam ser até 2050 as cinco maiores economias do mundo. Agora, como bloco, os BRICS existem desde 2009 (a África do Sul foi convidada a participar em 2011), e começaram as reunir-se para discutir o…a…bom, sabe-se lá exatamente o que. 

Desde o inicio dos encontros que as reuniões do bloco geram a mesma reação que acabei de manifestar. São países que apenas convergem por serem grandes potências econômicas emergentes e não possuem grande agenda comum. Não se sabe se os interesses podem ser os mesmos no campo político, econômico, social ou ambiental, já que isso ainda é muito nebuloso ao bloco. É possível apontar, no mínimo, uma vez que esses países se posicionaram de maneira extremamente oposta. A China é um dos focos dos discursos políticos brasileiros de “guerra cambial”, apesar de o Brasil não explicitar tanto isso publicamente. A Rússia e China vetaram as resoluções do Conselho de Segurança sobre a Síria que Índia e Brasil foram a favor. Nas negociações da Rodada Doha, em 2008, Brasil e Índia encontrava-se em espectros diametralmente opostos e foi também o voto indiano que prejudicou as ambições brasileiras. 

Apesar desse cenário, a reunião da última semana agregou muito interesse. Principalmente pela proposta indiana de criação de um Banco de Desenvolvimento dos BRICS e a possibilidade de o bloco convergir, pela primeira vez, em um ponto específico, o apoio à candidatura da nigeriana Ngozi Okonjo-Iweal para a presidência do Banco Mundial (que já era apoiada pela África do Sul). E, como já ocorreu nas últimas reuniões, as expectativas superaram a prática. A declaração final (clique aqui para conferir)não mostrou nenhuma ação concreta nesse sentido e mais pareceu uma colcha de retalhos, na qual cada país conseguiu emplacar assuntos que eram mais importantes para si e todos tiveram uma posição consensual nos moldes generalistas da Assembleia Geral das Nações Unidas (prezar pela Segurança e paz internacionais, buscar uma solução pacífica para os conflitos no Oriente Médio…). 

Essa resolução, a alguns, significa que o bloco está fadado ao fracasso e que não há nenhuma expectativa de convergências no longo prazo. Todavia, também pode significar que, como toda colcha de retalhos, possui uma linha condutora que segura os retalhos juntos. No caso dos BRICS, a linha seria a da busca por uma estrutura da economia mundial diferente daquela que vem mantendo-se desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não seria o caso de ser excessivamente otimista, mas de ser um pouco mais paciente. Blocos normalmente partem de um interesse comum ao se unir. Os BRICS se uniram para depois buscar um interesse comum. 

Seria essa uma fórmula errônea para a formação de blocos? Não há como dizer. Apesar de o grupo ser extremamente divergente, seu ineditismo seria uma das razões da falta de articulação. Não há outro bloco com a característica de ter poucos membros e, praticamente, um de cada continente. Bom, mas se os BRICS querem de fato consolidar-se, será preciso muito mais do que manterem-se somente pela linha. É preciso que sejam vistos como colcha. 


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