A bomba-relógio

Por

Nesta semana, ocorre a 18ª conferência Internacional sobre AIDS, em Viena. O encontro tem um caráter eminentemente científico, mas sua carga política é ressaltada pela presença expressiva de lideranças e personalidades internacionais. Afinal, o ônus do combate à doença é cada vez mais sentido pelos países, e o mundo é alarmado com a divulgação de dados da expansão do vírus. Se por um lado a África mostra sinais positivos de progresso contra a doença – o número de jovens infectados caiu segundo informações da ONU -, a doença avança em áreas empobrecidas como a Ásia Central e o Leste Europeu.

A preocupação não afeta apenas a esfera da saúde pública. De fato, a economia de países assolados pela imunodeficiência, principalmente os menos desenvolvidos, já é onerada severamente pela doença e pode vir a se tornar uma situação insustentável em anos vindouros, com um custo estimado em mais de 35 bilhões de dólares. Até mesmo o combate ao narcotráfico se mostra como uma das faces desse desafio (dado que o uso de drogas injetáveis um dos grandes meios propagadores de contaminação, principalmente nas zonas em expansão como o Leste Europeu).

Os custos de prevenção e tratamento são vultosos, e ainda assim pioram os indicadores. Para piorar, em momentos como a crise mundial de 2008, os países ricos fecham a torneira e há queda relevante nos recursos para combate à AIDS. Mas dinheiro não parece ser o problema – até mesmo as medidas costumeiras de prevenção e combate à doença (coisas simples como disponibilizar e incentivar o uso de preservativos) tiveram algum sucesso, como indica timidamente a África. Por que exemplos como modelo brasileiro de combate à AIDS, elogiado internacionalmente, não é seguido por outros países? Dir-se-ia que falta vontade política para promover esse acesso universal a tratamentos. De fato, o coquetel anti-AIDS movimenta muito dinheiro, e existe todo o lobby e o interesse das empresas farmacêuticas. Mas vamos além do lugar-comum nessa discussão, adentrando o terreno da própria segurança do Estado.

De fato, o fim da Guerra Fria fez emergir novos temas no estudo da Segurança Internacional, e o setor social é uma das faces que pode trazes ameaças ao Estado. Países com populações maceradas por epidemias, com parte das finanças comprometida no combate a um inimigo insaciável, servem de terreno para a instabilidade e a insurreição popular, quando não o caos, se aprendemos algo com a África nos últimos anos. Basta lembrar de como o estupro e a transmissão da doença já são utilizados como arma de guerra por lá.

Resta torcer para que a conferência traga resultados positivos e os dados alarmantes despertem os governantes para a crise mundial que essa doença representa, tanto para a saúde de seus cidadãos quanto à dos próprios Estados. Não apenas notícias esperançosas de algo como uma vacina, mas o despertar para o perigo real dessa doença bomba-relógio para os países.


Categorias: Economia


0 comments