A ausência difícil de preencher

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A fome não é muito exigente. Ela busca apenas ser contentada. Como, não importa. Essas sentenças são derivadas do pensamento de um antigo filósofo romano que inspirou a muitos: Lúcio Aneu Seneca. E de fato, não é preciso muito para dar aquilo que a fome quer, que nada mais é que uma ausência. E dar ausência é simples, dar nada é fácil.

Tão simples que ainda hoje, mesmo com os grandes avanços no campo da ciência e tecnologia ainda nos vemos satisfazendo-a constantemente. E de que modo satisfazemos a fome? Por incontáveis motivos. Instabilidades políticas, crises alimentares, Estados corruptos com baixa eficácia no serviço às populações, e assim por diante.

Outros fatores como as crises alimentícias – de origens diversas – e econômicas acabam por complicar ainda mais esse problema. E é muito difícil de superar tais crises, pois elas detêm caráter cíclico. E o ano de 2011 parece ter sido afetado por esses catalisadores da fome. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentaçã (FAO), em seu famoso relatório Food Outlook, anunciou que teme uma grave crise alimentar esse ano, com forças muito superiores àquela vivenciada em 2008. As grandes catástrofes climáticas que têm se alastrado pelo mundo tem complicado, e muito, a vida dos produtores.

E o cenário não parece divergir muito daquilo prospectado quando observamos os preços das commodities dispararem e largas discussões sobre como proceder emergirem. Apesar de ainda não termos atingido uma crise alimentar, se o passar do tempo acompanhar a inação, a situação pode agravar-se muito.

Propostas não faltam. O governo francês propôs, durante a reunião do G-20 no final de janeiro, a criação de um estoque internacional de alimentos administrado pela FAO, com o intuito de controlar os preços internacionais das commodities. A ONU já propôs estoques regionais de grãos para evitar maus momentos de colheita.

Uma crise alimentar no ano de 2011 agravaria ainda mais a situação econômica vivenciada na União Europeia e ampliaria muito a fome em países que não possuem divisas suficientes para importar esses alimentos com altos custos. O momento de discussão é agora. Se um cenário como esse estiver para emergir, são necessários diálogos profundos acerca das medidas para evitá-lo que, mesmo sabendo que isso nem sempre acontece, deveriam estar na primeira pauta da agenda internacional. Isso porque uma crise dessa magnitude gera fome, e a fome é uma das únicas questões que afetam a agenda econômica, de segurança e social de todos os Estados simultâneamente.

Esperemos que 2011 preencha mais ausências do que contemple as ambições desse fenômeno minimalista e fatal que assola a humanidade há muitos anos.

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