A audácia da desesperança

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Até que ponto os Estados Unidos estão na página errada da história?

Obama realizou o anseio premente de uma nação através da operação que vingou os atentados terroristas do 11 de setembro. No mais recente capítulo da saga norte-americana, o presidente fez um esperado pronunciamento sobre as revoluções no Oriente Médio e as perspectivas para o processo de paz entre palestinos e israelenses. Os pontos principais a se destacar foram as demandas com relação à atuação de Israel em territórios originalmente palestinos (de acordo com resolução das Nações Unidas de 1967) e a promessa de financiamento para projetos que fortaleçam a democracia nos países de região.

Pouco ou nada mudou. Israel é um dos aliados mais antigos dos Estados Unidos e o compromisso elementar da parceria é a manutenção da segurança dos israelenses. Obama já havia, em outras oportunidades, solicitado o congelamento da expansão dos assentamentos em territórios palestinos. Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, não parece dar atenção às demandas. Não há indícios que um discurso, repleto de intenções, do principal aliado tenha força suficiente para ensejar mais uma rodada de negociações. Israel tem forte resistência interna a qualquer ajuste. No final das contas, Netanyahu reconhece que as discussões devem ser baseadas nas fronteiras definidas em 1967, porém nunca as mesmas serão restabelecidas por representarem riscos à segurança dos israelenses.

Não só Obama não disse nada novo, muito menos algo que mudasse a figura das negociações, como abriu um precedente para Netanyahu destacar a posição oficial de seu país. O destaque, novamente, foi retórico. Vieram à tona os “valores” e o “dever” norte-americano de promover a democracia pelo mundo. As revoluções no Oriente Médio já ocorreram, algumas seguem em andamento, e suas motivações e seus líderes foram gestados internamente. Para piorar, muitos dos governantes depostos foram aliados de longa data dos americanos. Nesse sentido, estariam os Estados Unidos lendo os livros de história errados?

Como em um “revival” de outros momentos históricos, os norte-americanos ficaram à margem do que ocorreu. Contudo, dessa vez sua participação não foi encoberta, os revolucionários não foram patrocinados pela CIA, nem mesmo se previa tal cenário. Obama tenta marcar posição por meio do discurso, garantindo seu país na página certa da história. Será? Ontem, a TV Cultura mostrou um documentário sobre a invasão do Panamá em 1989, a mesma que forçou a renúncia do ditador Noriega. Os princípios, os valores, a influência e o poder bélico seguem quase os mesmos; as ações e os resultados não. A região que se tornou o eixo estratégico para a política externa norte-americana, o Oriente Médio, se liberta de seus ditadores sem uma participação tão profunda da (ainda) maior potência mundial.

Obama, representante da esperança e audácia pela mudança, ruma forte para a reeleição. No plano externo, nada mudou, nem parece que vai. Até o Super-Homem não acredita mais, afinal verdade, justiça e o “american way” não são mais suficientes.


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