A arte influencia a vida e a vida influencia a arte, mas e as Relações Internacionais? – Cinema de massa

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A produção artística sempre procurou estar interligada com tudo que acontece, e tem papel crucial na geração de debates sobre assuntos urgentes e possivelmente recorrentes. Mas até que ponto essa produção, influencia a tomada de decisão no plano internacional? Durante esse e alguns outros posts discorrerei brevemente sobre alguns meios, começo aqui pelo cinema mainstream/de massa.

Vejamos por exemplo os filmes de guerra. Grande parte deles, em especial dos clássicos, tem no seu centro a questão do soldado e da dificuldade que é lutar no campo de batalha em situações adversas junto com questionamentos sobre a natureza e os porquês da guerra, como em Nascido Para Matar, Platoon ou Apocalypse Now. Porém, ao contrário da época do Vietnã, os filmes hoje têm como foco mais a primeira parte (o soldado, o individuo) do que a segunda (o contexto, as motivações).

Falcão Negro em Perigo (filme que trata de uma batalha crucial da Guerra Civil da Somália) buscava dizer que “como nós soldados passamos perrengue, tudo bem lutar sem razões claras”, até mesmo o Senhor dos Anéis veio em boa hora para legitimar a luta “contra o mal e pela liberdade”. Isso fica explícito no Falcão Negro e sua representação dos somalis, mostrados como imbecis que lutam por ganância ou sem motivação real, nada diferente dos orcs da Terra Média. Mas sempre tem uma surpresa boa na contramão como o Distrito 9, que conseguiu promover uma discussão interessante sem ser 100% explícito e com um tema fora das agendas comuns (leia-se: realistas) de análise internacional, a segregação racial.

Não podemos deixar de apreciar o fato que muitas pessoas nem saberiam desses assuntos se não fosse por esses filmes, mas será que não estão aprendendo da forma errada? Afinal, são poucos aqueles que buscam aprender mais e ir mais fundo na discussão quando ela é apresentada, algo excelente quando ocorre, mas normalmente se contentam com a  – dita – impossibilidade de fazer algo pra mudar e acabam por absorver a mensagem como se tivessem assistido uma comédia romântica.

Resta aos poucos (sim, dentro dos milhões que assistem, somos poucos..) que sentem uma inquietação para discutir mais a fundo, perder um pouco da vergonha e tentar aprofundar o papo com amigos, família, etc. Já que, não é culpa dos filmes a falta de atenção aos debates internacionais e muito menos podemos ficar parados assistindo a manipulação a céu aberto.


Categorias: Cultura


2 comments
Ivan
Ivan

Veja só, o próprio filme revelou o que sairia da discussão provocada por ele próprio... deve muito triste para um diretor perceber isso.E durante o Vietnã, tinha muito filme e musica criticando tudo que acontecia, algo muito fraco hoje em comparação com aquela época...

Jéssica
Jéssica

Olá,então, quando vc fala da da"impossibilidade de fazer algo pra mudar" e do fato de as pessoas assistirem a esse tipo de filme como se tivessem assistido à uma comédia romântica me lembra uma parte do filme "Hotel Ruanda", que pra quem assistiu deve lembrar-se, quando o jornalista fala pro protagonista que as pessoas vão estar jantando e vão assistir àquelas cenas do genocídio em Ruanda, vão achar horriveis, mas vão continuar jantando. Tal fato é puramente real,todos nós vemos não só em filmes, mas em jornais, revistas e afins guerras, conflitos, fome, miséria e nao paramos nem pra discutir tal questão. O roteiro fica em ver o filme, se sensibilizar( alguns até choram) e ao acabar o filme desligamos a TV e pronto. Como vc disse são poucos que sentem inquietação e param pra pensar e discutir sobre tal fato.Abraços --