A arte de ser mulher

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Sim, ser mulher é uma arte. O gênero não deveria, por si só, determinar tamanha discrepância de oportunidades, porém, (ainda nos dias de hoje!) os desafios do dia-a-dia contradizem as aspirações ideais de uma sociedade igualitária. Um longo caminho vem sendo percorrido nas últimas décadas em meio à luta das mulheres – em suas mais diversas realidades – pelo reconhecimento de direitos básicos, humanos, que nunca deveriam estar subordinados a exigências (artificiais) de gênero.

Segundo um relatório sobre desigualdades de gênero produzido e divulgado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial, a Islândia é o “melhor país para ser mulher” no mundo. O país nórdico lidera um ranking de 136 países em que são elencados os elementos determinantes para uma sociedade em que homens e mulheres têm acesso igualitário garantido aos seus direitos. Os eixos avaliados incluem, majoritariamente, o poder político, a participação econômica, e o acesso à educação e à saúde – englobando, na amplitude de tal análise, os aspectos essenciais da vida em sociedade. [Confira o estudo completo aqui.]

Com o Iêmen (não surpreendentemente) em último lugar, e o Brasil assumindo uma tímida 62ª posição (idêntica à do ano passado, aliás), é reconhecido que o histórico islandês não foi alcançado sem lutas e sem a determinação de 90% das mulheres (!) que, em 1975, saíram às ruas para protestar. Paralisação que marcou o histórico feminista no país e que reflete a importância de que todas as vozes sejam ouvidas na participação na política e no mercado de trabalho.

Dizer que não houve mudanças históricas no Brasil seria também negligenciar os fatos. Se em 1979 não havia nem banheiro feminino no Senado (!!!), por exemplo, em 2011 tomou posse a primeira presidenta do país. Nesse ínterim, o relatório reconhece os avanços brasileiros na área de educação das mulheres, contudo, no que se refere à igualdade salarial, o Brasil ainda ocupa a 117ª posição da lista (do mesmo total de 136 países): um índice que impressiona (negativamente) e que demonstra que ainda temos muito a aprimorar, em muitos aspectos…

Na busca de quebras de paradigmas no mundo, é notável ainda o exemplo da jovem Malala, paquistanesa que, ao tentar ser silenciada, se tornou, paradoxalmente, a voz mais ouvida na luta pelo direito das mulheres à educação em seu país. Os países do Oriente Médio e do Norte da África figuram notoriamente no final das classificações, já que reconhecidamente a mulher ainda sofre barreiras sociais muito maiores na região que em outras áreas do mundo.

Em face a um panorama de tal complexidade, são conquistas e desafios ainda em jogo que se destacam. [Interessante série de reportagens sobre o tema aqui.] Conquistas que não deveriam ser vistas apenas como “feministas”, mas sim “sociais”, já que compreender o papel da mulher na sociedade constitui, na verdade, um esforço de homens e mulheres em avaliar o acesso a seus direitos e ao reconhecimento de suas capacidades – as quais não estão (e nunca estiveram) condicionadas à questão do gênero.

Enquanto isso, o “ser mulher” continua representando uma arte: a arte de demonstrar seu potencial e conquistar seu espaço paritariamente com os homens no dia-a-dia, desvinculando o gênero dos preconceitos históricos que, infeliz e injustamente, sempre situaram as mulheres em posição de inferioridade na vida social. 


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


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