A arte da dialética das vontades

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As recorrentes discussões de uma nova rodada de sanções contra o Irã têm aberto precedentes para uma reflexão interessante no referente aos interesses de cada parte envolvida. Algo que chama a atenção para essa discussão é o questionamento das razões pelas quais o governo brasileiro se opõe tão veementemente a essa medida. A primeira resposta que vem à mente é que o Brasil busca a exaltação de nova posição de ator global visada e assim aspira o engrandecimento sem imperar (e, portanto opor-se a grandes desigualdades do sistema internacional).


Infelizmente apenas essa assertiva não é o suficiente para entender essa relação. Isso porque o Brasil vira e mexe toma posições não condizentes com suas ambições de ator global com declarações não muito bem colocadas, como as polêmicas frase sobre os prisioneiros políticos de Cuba (mais posts sobre o assunto aqui e aqui). Seria então uma pueril motivação de opor-se aos EUA no sistema internacional para se reafirmar como ator regional? Não, talvez não seja tanto por aí também porque nem quando teve a oportunidade agiu com a presteza necessária (se fosse esse o objetivo).


É nesse questionamento que um conceito muito difundido tem grande valor explicativo: a estratégia. Em seu entendimento tradicional é pensado somente em termos militares, confundindo-se com aquele de tática. Contudo, o mais abordado é o entendimento mais abrangente pensado na realização de atividades de diferentes naturezas. Existem, portanto, estratégias bem elaboradas, mal pensadas, pragmáticas, idealistas e etc. De modo geral como defende o famoso estrategista francês, André Beaufre, é algo que reside num jogo abstrato de vontades opostas e denota a capacidade de se empregar técnicas para lidar com problemas colocados diante de si. Em outros termos, a arte da dialética das vontades.


E aí o que isso muda? Bom, deixa as coisas um pouco mais claras. O Brasil tem utilizado uma estratégia. Mas isso não é óbvio? Não, se for ausente o entendimento de que o Brasil também tem suas razões para evitar sanções ao Irã, portanto o ponto em questão lida com vontades opostas, não só no campo da retórica, mas no campo dos interesses comerciais e estratégicos. Sua oposição não é somente por qualquer sentimento cosmopolita de maior igualdade no sistema internacional, é também porque tem seus negócios no Irã. A visita de Ahmadinejad ao Brasil, a recente visita do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, e de um grupo de empresários brasileiros ao Irã com a finalidade de intensificar o comércio entre os dois países e a visita de Lula ao país, agendada para maio, denotam um pouco desse esforço. Destarte qualquer tipo de sanção mais rígida ao Irã poderia minar os novos investimentos comerciais brasileiros no país.


E esses jogos abstratos de vontades opostas é o ponto de reflexão ao aproximarmo-nos da questão das sanções ao Irã. Usemos o exemplo da China. Caso as sanções fossem aprovadas, o país teria um prejuízo trilionário no referente dados os investimentos que tem em território iraniano. E recentemente os chineses tem aumentado essa quantia com base nos mais de 4 bilhões injetados para a exploração de petróleo na região, e ainda têm novos planos de investir mais altas quantias na região.


Na última Cúpula de Segurança Nuclear (assunto muito bem abordado pelo Giovanni em seu último post) os Estados Unidos mais uma vez continuaram as pressões pelas sanções contra o governo iraniano. Em oposição a esse evento, o Brasil busca reconhecer posições semelhantes para realizar um esforço contrário, no âmbito do segundo encontro dos BRICs, para quem sabe manter a posição chinesa e eventualmente convencer o governo russo. Ao final dessa grande odisséia veremos qual desses Estados realmente tem a melhor técnica para lidar com essas vontades opostas. E o mais interessante é que nesse jogo abstrato não há regras definidas, cabendo somente aos jogadores decidirem-nas na medida em que o jogam.


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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