A Argentina e o tango do Mercosul

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Se há muito o que comemorar com os 20 anos de aniversário do Mercosul, há também muito o que se lamentar. Há um vai e volta de avanços e retrocessos, bloqueios e novas adesões, proteções e benefícios que mais parecem uma dança e não anunciam um fim no horizonte sul-americano. Essa dança mercosulina, tem, resumidamente, requererido de seus dançarinos proximidade sem necessariamente demandar intimidade ou romance.

Traços que lembrariam muito bem um tango argentino. Mas por que falamos de tango?

Bom, porque a terra-mãe dessa dança já foi o epicentro de algumas crises no bloco durante a década de 1990, e hoje vive novamente o antigo paradoxo do desenvolvimento – a dúvida entre proteger o mercado ou aderir ao livre-comércio –, que tem complicado bastante o proceder do Mercosul comercial. Na dúvida, o país optou por uma versão mista, já muito conhecida pelos grandes países ocidentais, a de proteger o seu lado e liberar o do outro.

Uma área de livre-comércio mais unilateral, espécie de liberdade de bloqueios, de um lado, e manutenção de benefícios da união-aduaneira, de outro. Em outras palavras, a Argentina tem ido de encontro com a ideia de bloco mercosulina, não permitindo as famosas licenças automáticas de importações (importações automáticas, sem necessidade de licença anterior do governo) e promovendo longos bloqueios de produtos, provindos de países como Paraguai e Brasil, em seus portos e rodovias.

Nesse contexto de dança de produtos estrangeiros pelas vias argentinas que o Brasil resolveu adotar uma medida semelhante ao bloquear produtos estratégicos para a Argentina, como automóveis e autopeças, na semana passada. Apesar de o Brasil depender muito desses produtos argentinos, houve certo teor de malandragem nessa atuação, já que nos últimos meses temos tentado limitar a demanda por bens desse tipo para evitar a escalada da inflação.

A questão é que, malandragens ou não, um vai e volta de bloqueios dentro do Mercosul não é saudável para o bloco, pois se perde o senso de cooperação. Mas se ações como as da Argentina não encontrarem uma mão amiga do outro lado, pode ser que seja alguns daqueles males que vem para o bem.

Resta esperar para ver, se nesse festival sul-americano de dúvidas e incertezas, o tango mercosulino será sempre certo ou se poderá apresentar uma nova dança da integração comercial.


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