A Angola e suas continuidades

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Angola: país marcado, certamente, por continuidades notáveis. Historicamente, o nome “Angola” é derivado do termo bantu N’gola, expressão que se refere ao título do governante da região durante o século XVI, período de colonização portuguesa na localidade. Como continuidade destacada, tem-se, pois, a centralidade da figura do governante no país. Mesmo através dos anos e das evoluções e mudanças pelas quais a Angola passou após sua independência, pode-se visualizar ainda nos dias atuais claras manobras para a ampliação do poder presidencial no país.

Foi aprovada nesta quinta-feira a primeira Constituição angolana desde a independência do país em 1975, mas o que deveria representar o auge da democracia local na verdade demonstra real ênfase na figura do presidente José Eduardo dos Santos (foto), que se encontra no poder desde 1979. Em sessão boicotada pela majoritária oposição a seu partido, a partir do novo texto aprovado tem-se a delimitação de aspectos importantes. Podem-se destacar: o fato de a escolha do presidente dever acontecer por meio do partido vencedor das eleições parlamentares; a determinação de que todas as terras pertencem ao Estado, responsável pela otimização de seu uso; dentre as demais características que tornam a influência presidencial cada vez mais presente na vida angolana. (Maiores informações a respeito das questões constitucionais em Angola aqui.)

Elevado grau de continuidade também pode ser percebido no tácito meio de promover importantes decisões políticas em épocas estratégicas, tais como o contexto da atual (e chamativa) “Copa Africana de Nações”, que está sendo disputada em terras angolanas. Continuidade lamentável, mas freqüentemente percebida também em outros países de Língua Portuguesa…

Resta, portanto, ressaltar a necessária continuidade da luta popular de Angola por representação e desenvolvimento, tal como podemos perceber pelos versos do poeta angolano Manuel Guedes dos Santos Lima (extraídos do poema “Exprimo-me pelo silêncio”):

“Exprimo-me pelo silêncio
em torno de mim decretado.
Cumpro pena de ausência
por insubmissão
e reincidência.
Vivo no segredo sintonizado de quem me sabe.
Sou
na negação com que me afirmam.
Reconhecem-me omitindo-me,
Logo existo.
Por isso resisto.”

Que esse espírito responsável de mudança possa iluminar o árduo caminho que, por vezes, distancia as intenções democráticas e a atuação política real no cenário internacional em que vivemos.


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