O mínimo aceitável

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Em semana de notícias negativas (mas qual não foi?), algo de interessante acontece na Europa, com o anúncio da instituição, pela primeira vez na história, do salário mínimo com piso geral na Alemanha. Quer dizer, na Alemanha atual, já que isso já existia na finada Oriental. Pode parecer uma notícia banal, mas vai ter um impacto bem grande na economia europeia, além de ter um baita significado histórico.

Para quem não sabe, os sindicatos foram uma das principais forças de reconstrução da Alemanha no pós Guerra. São eles que definem as regras de contratação e pagamento de cada setor diretamente com as empresas, dinamizando a economia e reduzindo o peso do governo na definição de valores e mecanismos. Porém, nos últimos anos, houve denúncias de condições absurdas de trabalho (com pessoas recebendo centavos de Euro por hora), empobrecimento crescente da classe trabalhadora e a pressão por regulamentação falou mais alto. Durante as últimas eleições, Merkel teve de se aliar, entre outros, ao Partido Social Democrata para se manter, e a bandeira do salário mínimo foi uma das condições para o apoio. Como vemos, nem mesmo a Alemanha está livre dos conchavos políticos, mas com isso quem ganha é o trabalhador formal: com algumas exceções específicas, os alemães até no máximo 2017 vão começar a ganhar no mínimo 8,5 euros por hora.

A grande discussão sobre o impacto atinge todos os níveis. Internacionalmente, os parceiros europeus adoraram a notícia (que significa perda de competitividade pela Alemanha), apesar de oficialmente apenas parabenizarem a Alemanha por fazer o que já praticam há anos (outros 21 países da UE já tem salário mínimo). Internamente, oposição é o que não falta – além das dificuldades em regulamentar a mudança, isso deve fazer explodir a informalidade, além de aumentar os gastos públicos e ir totalmente contra o arrocho fiscal de Merkel dos últimos anos. É um cenário bastante complexo, ainda mais se considerarmos a possível crise decorrente da troca de socos com a Rússia por conta da Crimeia – os efeitos de possíveis sanções e cortes de abastecimento ainda são uma incógnita, cada vez mais próxima de se revelar.

O que fica de lição? Primeiro, mesmo com a UE em crise, é espantoso ver como a Alemanha tem capacidade suficiente para instrumentalizar uma mudança dessa envergadura em um cenário relativamente desfavorável. Não é de admirar que o país puxe a Europa nas costas. Segundo, conchavo político infelizmente é um mal até nos melhores governos. E terceiro, finalmente os trabalhadores alemães do século XXI vão poder curtir uma das vitórias do trabalhismo do século XX.


Categorias: Economia, Europa


1 comments
LuizFelippeSantana
LuizFelippeSantana

Na verdade, não é tão impressionante assim ainda vermos conchavos politicos até mesmo nos melhores governos visto que a historia nos ensina que muitos dos melhors governos nasceram e/ou se fortaleceram devido a tais conchavos. E isso se faz verdade ate mesmo de governos monarquistas de grandes passados.