65ª Assembléia Geral da ONU: entrada para raros, saída para raridades

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Há uma semana, deu-se início a 65ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (aqui), na qual entram os raros e da qual saem raridades. Não no sentido de Fernando Anitelli e sua trupe de “O Teatro Mágico”, transformando qualquer espetáculo num grande sarau, mas com nações e diferenças que devem dialogar em prol do mundo todo, sem lirismos nem fantasias. Ninguém coopera porque é bonzinho e ninguém guerreia porque é naturalmente mau, há interesses em jogo, que excedem os discursos poéticos e entremeiam o binômio realidade/transformação.

No novo milênio, os líderes e representantes de todas as nações do mundo lançaram os chamados Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e então se dedicaram a persecução de cada um deles até 2015. Esforço raro, notável e necessário. É também, como de práxis desde 2001, objeto de avaliação durante esta Assembléia. O tempo está encurtando e menos da metade dos países alcançarão essas metas audaciosas.

E a paz e segurança internacionais, objetivo primordial da Carta da Organização? Hoje, o Secretário-Geral, Ban Ki-Moon, abordou várias dimensões dos problemas para o cumprimento desse objetivo (aqui), bem como das iniciativas que se têm adotado, indo muito além da questão nuclear iraniana ou do secular conflito israel-palestino. É bem verdade que Ahmadinejad não poderia deixar de polemizar e atrair a atenção da mídia, por meio de idéias como “guerra ilimitada” ou “fim do capitalismo”. Mas suas declarações impactantes não devem parar por aí, porque na sexta é que se discutirá sobre o desarmamento.

Outro assunto caro para esta Assembléia Geral é a biodiversidade – não nos esqueçamos, este é o Ano Internacional da Biodiversidade, declarado pela ONU. Não faz muito tempo, Jeffrey Sachs, renomado economista norte-americano e idealizador dos ODM, declarou que era preciso mudar para sobrevivermos, o que inclui o aproveitamento responsável da biodiversidade, compatível também com o desenvolvimento humano. Aqueles que estão presente neste período de sessões estariam cientes disso? Saberiam como fazê-lo? Muitas vezes, até sabem, mas escrevem fórmulas que não ultrapassam os limites de uma resolução, declaração ou qualquer outro documento oficial.

Sempre o ceticismo ronda as Assembléias Gerais das Nações Unidas, caracterizadas como um espaço de encontro de cavalheiros de suas cortes nacionais para discutir o mundo de modo sofisticado – atualmente, há também ingresso para os representantes da sociedade civil organizada. Substituamos ceticismo por raridade. Entram os raros, um seleto grupo que responde por praticamente sete bilhões de pessoas. Saem decisões raras, que abrangem todo o conjunto de povos. As Nações Unidas ainda não estão à altura dos desafios vindouros do século XXI, conforme questionou Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU, em 2000.


Categorias: Organizações Internacionais


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